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América Latina: Histórias, fantasmas, demônios e assombrações.

Categorias: América Latina, Argentina, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Arte e Cultura, Filme, Literatura

Full Moon, por Irargerich [1] A mitologia latino-americana é bem rica: algumas histórias nos foram passadas pelos Incas, Maias e Astecas, outras são importações coloniais da Europa. Na primeira parte deste post multinacional Latino Americano, nós iremos visitar os mais populares mitos e lendas como a Llorona, a Cegua, os Cadejos e a Luz do Mal.

Lendas e mitos são parte de nossa cultura. Nina Maguid menciona, em seu post “De Espantos y Espantajos [2]” [De Espantos e Assombrações, em espanhol], que estas histórias eram contadas em primeira pessoa, geralmente à volta do fogo, e eu não poderia concordar mais com o que ela diz. Eu costumava ouvir versões locais de algumas dessas histórias durante as minhas férias, sentada em mesas de jantar em casas de fazenda, nossos rostos iluminados por uma bruxulente lâmpada de querosene. Bastava um inexplicável latido de cachorro ou o som de um cavalo galopando em algum lugar na calada da noite para que estas histórias fossem lembradas. Nina menciona três assombrações famosas na cidade natal de sua mãe, na Argentina: A luz do mal, a viúva e o porco.

gaping maul
Scary creatures that jump at you [3] [“Criaturas assustadoras que pulam em você”, em inglês] por kevindoolay [4]

De acordo com Comodín, no El Blog de Oro [5] [Es], esta luz seria usada para procurar por tesouro: se fosse uma luz branca, seria um sinal de um tesouro de ouro e prata, mas se fosse vermelha, tinha-se então que sair correndo, pois estava alí o trabalho do diabo. Este mito não é, de forma alguma, exclusivamente argentino: em todo o mundo as pessoas tentaram explicar o sentido destas luzes misteriosas [6] que aparecem no crepúsculo, como na Espanha [7] [Es] e no Chile.

A Viúva era uma mulher enganada no amor, que morreu ao descobrir que seu marido a era infiel. Ela teria então assinado um pacto com o diabo para permanecer eternamente neste mundo e obter sua vingança. Ela costumaria pular nos cavalos de homens solteiros e cavalgar abraçada a eles, e se eles se assustassem, ela os mataria. A única forma de se manter ileso seria carregar um rosário ou um crucifixo, e não ficando assustado. Este mito é tão arraigado na Argentina que a expressão “ser visitado pela Viúva” é um sinônimo para um evento inesperado e desagradável.

El Loco Bender [8] [Es] escreve também sobre a Viúva Negra, e adiciona um toque especial à sua história de eriçar os cabelos, prometendo uma morte solitária, lenta e dolorosa para os homens impetuosos e infiéis que ela encontra.

A Costa Rica tem um mito similar, conhecido como La Cegua. La Cegua pede carona a homens solitários e infiéis, atraindo-os com sua grande beleza, mas uma vez que ela esteja sobre o cavalo, quando o homem olhar para trás verá que seu rosto é um crânio de cavalo coberto por carne podre, e ela irá morder suas bochechas para marcá-los como infiéis. Contudo, o blogueiro Elemental [9] [Es] escreve que o resultado deste encontro pode ser ainda mais grave: todos os homens infiéis morreriam com seus olhos arregalados de medo, e aqueles que não fossem infiéis não perderiam suas vidas, mas se tornariam impotentes para o resto de suas vidas.

Elemental também escreve sobre os Cadejos, cães demoníacos que apareceriam à noite acompanhados por um som de correntes sendo arrastadas, embora nenhuma corrente seja visível. Do tamanho de um bezerro pequeno, este cão teria o pêlo emaranhado, dentes gigantescos e olhos, narinas e orelhas incandescentes, que assustariam qualquer coisa em seu caminho, de crianças travessas a homens perdidos e animais de fazenda. Contudo, esta “assombração” é considerada benévola, pois caminharia junto aos homens embriagados para certificar-se de que cheguem em segurança a suas casas, até mesmo protegendo-os de outras criaturas da noite como La Llorona ou ladrões comuns. Na Guatemala, contudo, eles consideram que haja duas versões deste cão: o negro e o branco. O cão branco protegeria qualquer um que acompanhasse, e no site Deguate.com [10] [Es], a senhora Argentina Barcia conta como os Cadejos ajudaram ela a encontrar o corpo de seu pai falecido. No El Blog Chapin [11] [Es], outra história arrepiante conta como os Cadejos apareceram para um trapaceiro da cidade que estaria hospedado em uma fazenda, e como as pessoas deveriam escutar os avisos de natureza sobrenatural dados por pessoas do campo.

La Llorona next to a river
La Llorona [12] por rareworlds [13]

A nossa última lenda de hoje é a lenda de La Llorona [14] [En], e esta lenda me fez ter medo de gatos em dias quentes por muitos e muitos anos de minha infância. La Llorona é “a chorona”, e esta é uma assombração multinacional. Do México até o Chile, a Llorona fica perto de corpos de água (que podem ir de rios ao tanque em seu quintal) e geme por suas crianças perdidas. Ela pode estar lá só para assustar você, ou se você estiver na Colômbia [15] [Es], ela pode querer que você segure seu bebê por apenas um segundo, já que ela está muito cansada, e então você estará condenada a ser La Llorona até que alguém tome o peso de seus braços. As histórias por trás do desaparecimento de seus filhos variam de um país para o outro, mas a maioria delas tem alguns elementos em comum. Mulheres que se casaram com homens bem mais ricos do que elas eram, foram enganadas ou abandonadas, e decidiram descontar sua fúria em suas crianças, afogando-as, para depois arrepender-se de seu ato. Outras versões trazem uma jovem namoradeira que deixa seu bebê em uma pedra de rio, onde ela pensa que ele estará a salvo enquanto ela vai dançar, mas então o rio sobe e leva a criança embora, e então a mulher fica próxima a rios, perguntando a todos se eles viram seus filhos.

O filme de animação em curta-metragem a seguir, Asusto, de Pablo e Francisco Céspedes Jr [16] [Es] mostra várias, se não todas as lendas mais populares da Costa Rica, incluindo o carro-sem-bois e o padre sem cabeça. Nenhuma tradução se faz necessária: parece não haver necessidade para palavras quando você está ocupado correndo de uma assombração depois da outra.