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Brasil: Massacre do Carandiru, impunidade e esquecimento

Visita ao Carandiru, foto pela usuária do Flickr silmaraelis, publicada sob licença da Creative Commons. A legenda diz “as almas já estavam esquecidas lá dentro há muito tempo”.

O Massacre do Carandiru, considerado uma grande violação dos direitos humanos da história do Brasil, aconteceu há dezesseis anos (em 2 de outubro de 1992) depois que uma briga entre presos teve início no Pavilhão 9 do Complexo Penitenciário do Carandiru, em São Paulo. Fora de controle, a rebelião acarretou na intervenção de tropas de elite da Polícia Militar e num confronto, o que resultou na morte de 111 prisioneiros. Nenhum policial morreu.

Grupos de Direitos Humanos alegam que a maior parte dos prisioneiros não estava armada e não houve resistência, e acusam a polícia de também abrir fogo contra presos que já tinham se rendido ou que tentaram se esconder. Independente disso, ninguém veio a ser punido e a única pessoa a ser julgada foi o comandante da operação, coronel Ubiratan Guimarães (assassinado em setembro de 2006 em um possível crime passional). Ele foi inicialmente setenciado a 620 anos de prisão mas a setença condenatória foi em seguida revogada por causa de equívocos no processo.

Muitos blogueiros brasileiros re-publicaram as notícias que circularam na imprensa, mas apenas alguns poucos dedicaram um post original ao dia. Dinha doi um deles, lembrando a data como “a maior covardia contra a população carcerária na história do país”:

Ontem, 02/10/2008, fez 16 anos que o Estado divulgou oficialmente que massacrou 111 cidadão brasileiros. Todos os que foram massacrados, assassinados, não estavam em guerra franca com o Estado, mas sim, no momento do massacre, eram prisioneiros, estavam sob cutódia desse mesmo Estado. Por isso estavam desarmados e mais, muitos estavam trancados em celas.

Em um post chamado “Impunidade”, Tarso Araújo lembra que ninguém foi responsabilizado por esse crime, e que não existe uma estimativa de quando os acusados irão à julgamento:

O fato de o processo envolver muitos réus, além das dificuldades estruturais do Judiciário para responder ao acúmulo de ações pendentes, faz a tramitação ficar lenta.

O processo está em grau de recurso no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Por haver indícios de autoria de crime doloso contra a vida, o juiz determinou que os réus fossem julgados por júri popular, situação com a qual os denunciados não concordam.

Depois que o TJ-SP decidir a questão, será necessário definir os procedimentos para o julgamento de um número elevado de réus. Não há previsão de prazo para que os réus sejam julgados.

Respondendo a uma pergunta feita no Yahoo! Respostas sobre como a rebelião começou, Pucca [pt] compartilha uma parte da história que ela tomou conhecimento por meio de um conhecido, um dos presidiários do Pavilhão 9 que sobreviveu ao massacre:

Um conhecido de família viveu aquele inferno. Ele nos disse que na verdade ninguem sabe afirmar exatamente como tudo começou. Ele disse que ajudou a jogar mais de 200 corpos dentro do fosso de supostos elevadores existentes no presídio e que tiveram suas portas lacradas com concreto. Seu amigo de cela (barraco) foi morto por policiais, ele só sobreviveu porque se escondeu atras da porta, quando as celas foram desocupadas pelos presos a pedido dos pms ele disse que correu juntamente com tantos outros presos pelas escadarias da prisão que estavam lavadas de sangue e cachorros pastor alemão iam ao encalço deles. Um dos cachorros mordeu sua mão direita. Disse que ficou no pátio com outros presos mais de 12 horas pelados e todos de cócoras. O crime dele???? Participou de um assalto a uma casa lotérica, réu primário cumpria pena no pavilhão 9, onde tudo começou.

The Hub traz uma entrevista com P.P., que estava cumprindo pena no vizinho Pavilhão 8 e que assistiu ao desencadear do horror da janela de sua cela. Ele afirma que o número oficial de mortos, 111, reflete apenas àqueles que foram procurados por familiares – ele acredita que foram mais de 300 mortos. Junto com um grupo de mais de 30 presos, ele foi convocado para ajudar a retirar os corpos, sendo que por conta própria carregou 50. P.P. lamenta que, 16 anos depois, o caso é marcado pela impunidade e pelo esquecimento:

“Foi feio. Agora o que mais dói, o cúmulo é que caiu no esquecimento. Ninguém mais retoma esse assunto aqui no Brasil” (P.P., em entrevista a Raquel Quintino, militante dos direitos humanos da Universidade de Comunicação Livre. Veja a entrevista completa em português).

O Complexo Penitenciário do Carandiru chegou a ser a maior prisão da América do Sul e a ter uma população de 8 mil presidiários. O presídio foi demolido em 9 de dezembro de 2002 para que o local fosse transformado em um parque aberto ao público. O usuário do YouTube mtrombelli tem um documentário feito por estudantes de jornalismo mostrando os últimos momentos, as celas vazias e a demolição. O usuário do Flickr ispic tem uma galeria de fotos tiradas antes da demolição.

Aqueles que gostariam de saber mais sobre a história da prisão e do massacre podem começar assistindo ao aclamado filme Carandiru, dirigido por Hector Babenco, e inspirado no best-seller Estação Carandiru, do médico brasileiro Drauzio Varella, que trabalhou como voluntário no presídio lidando com a epidemia de AIDS no local, entre 1989 e 2001.

26 comentários

  • Antônio Pereira

    (Segurança Pública)

    Uma reportagem feita no ano passado por Marcelo Godoy mostra que os crimes do PCC tinham raízes mais antigas. Em belo trabalho investigativo, Marcelo Soares compilou os abastecimentos de automóveis e saques em dinheiro feitos pelas forças policiais naqueles dias. Pelo menos uma testemunha presenciou uma vítima civil implorar por sua vida e ser executado por policiais. Em seu blog, o policial Roger Franchini afirma: Em pleno dia de visita no das mães, mais de 500 presos se rebelaram e tomaram as próprias genitoras e crianças como reféns. Era óbvio que não iriam fazer nada contra elas. E por saberem que sabíamos disso, tomaram como refém também um carcereiro. Se não fosse por ele, teríamos entrado na cadeia e distribuído chumbo e cassetetada em todos.

    No entanto, o balanço publicado pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo lista os mortos em duas categorias: policiais militares, civis e guardas, por um lado, e “criminosos”, por outro, em implícita afirmação de que nenhum civil inocente foi assassinado pela polícia — apesar de que a grande maioria das investigações acerca de mortes de civis foram arquivadas e que um levantamento inicial constatou pelo menos 89 assassinatos com característica de execução (sem chance de defesa para a vítima). Na época, o escritor Ferréz denunciou que a lei marcial para pobres inocentes foi decretada. Tendo sofrido uma série de ameaças em seu blog, Ferréz fez outro post insistindo que não ia se calar.

    O blog de outro policial, o Flit Paralisante, traz uma série de denúncias contra a política de segurança em São Paulo. Em 2009, ainda não ocorreram ataques do PCC, o que, para uma especialista, só indica que o controle deles sobre as prisões é absoluto. No Twitter, há uma verdadeira enxurrada de recordações dos eventos de 2006. Os ataques do PCC chegarão às telas do cinema.

    A população carcerária no Brasil vem crescendo ano a ano. Em 1995, eram 148.760 presos: 95,4 para cada grupo de 100 mil habitantes. Em 1997, eram 170.602 presos, com taxa de encarceramento de 108,6 por 100 mil. Em abril de 2001, já havia 223.220 presos no país: 142,1 detentos para cada 100 mil habitantes. De longe, a maior concentração estava em São Paulo, com 94.737 presos e proporção de 277,7 presos para cada 100 mil habitantes. Há extensa documentação no site do Ministério da Justiça.

    http://www.idelberavelar.com/archives/2009/05/tres_anos_de_uma_matanca_e_a_falencia_de_uma_politica_de_seguranca.php#comments

    Atualização: A lista completa de blogs que estão participando desta conversa virtual já está publicada lá no Pensar Enlouquece. http://www.interney.net/blogs/inagaki/2009/05/15/ha_3_anos/

    Pensar Enlouquece.
    por Alexandre Inagaki

    Sexta, 15 de Maio de 2009

    Há 3 anos

    Três anos é o prazo após o qual cadáveres que estão em sepulturas individuais vão para covas coletivas, conforme procedimento padrão adotado nos cemitérios públicos de São Paulo. Arual Martins, promotor criminal que trabalha na zona Sul da capital, região que concentrou o maior número de casos no já distante mês de maio de 2006, declarou: “Qualquer apuração criminal, o tempo vai apagando e deixando tudo muito longe. À medida em que o tempo vai passando, tudo vai sumindo. A memória se perde.”

    Há 3 anos, São Paulo sofreu a maior onda de ataques contra o Estado em toda a sua história. Tudo começou na noite da sexta-feira, dia 12 de maio de 2006. Cerca de 12 mil detidos foram liberados das cadeias, graças ao indulto concedido por causa do Dia das Mães. Muitos desses homens saíram com uma missão a cumprir: iniciar uma série de atentados, catalisados pela transferência de oito dos principais líderes do PCC (Primeiro Comando da Capital), dentre eles Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, para a sede do DEIC (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado) em São Paulo, e depois para a penitenciária de segurança máxima em Presidente Bernardes.

    Presos rebelaram-se nas cadeias, ônibus foram queimados, bancos e postos policiais foram metralhados. Mas o auge do pânico que assolou a incauta população paulista ocorreu na segunda-feira, dia 15 de maio, quando uma onda de boatos espalhou-se por São Paulo, amplificada pelos noticiários sensacionalistas na TV. Resultado: a maior cidade da América do Sul simplesmente parou. Escolas cancelaram aulas, o comércio fechou as portas, e-mails espalharam o boato de que haveria um “ataque de violência às 18 horas” e São Paulo foi tomada por um inusitado megacongestionamento no meio da tarde, com pessoas aflitas por chegar às suas casas. À noite, William Bonner apresentou o Jornal Nacional fora do estúdio, tendo a marginal do Rio Pinheiros ao fundo, entrevistando ao vivo Cláudio Lembo, governador de São Paulo na época. É um momento significativo: Bonner nitidamente mostra irritação com as respostas de Lembo, interrompendo e contestando as falas do governador em diversos momentos da entrevista.

  • Antônio Pereira

    Comentários
    #1
    Essa historia dos ataques do PCC em 2006 tem pano prá muita manga. Os ataques do fim de semana e as execuções posteriores têm raízes nessa dinamica toda da podridão do sistema carcerário brasileiro (chamar de “sistema” é uma gentileza, né?), mas a impressionante paralisia de São Paulo na segunda-feira – e não foi virtual, dava para deitar de atravessado no meio da Faria Lima às 7 horas da noite sem medo de ser atropelado, não tinha NINGUEM na rua – não foi fruto dessa guerra Policia/PCC, mas do pânico espalhado pelos programas de TV e pela internet, porque na segunda NÃO HOUVERAM ATAQUES, eles terminaram no fim de semana! Mas o sensacionalismo da TV se espalhando pela folhagem seca da internet, junto com a terrível postura de medo, individualismo furioso e preconceito do paulistano causaram um hediondo engarrafamento as três da tarde e a impressionante cidade morta do fim do dia.

    Então, em poucos dias ficaram expostas acho que todas as piores características do sistema carcerário, da polícia, dos paulistanos, da mídia, da internet e até do Dia das Mães.

    Só UM filme não vai dar conta disso tudo, certamente!

    Daniel em maio 15, 2009 11:24 AM

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    #2
    Nem vou falar dos ataques, mas não podemos nos esquecer de como funciona o sistema carcerário brasileiro.Aquilo é desumano, é bestial. Amontoam-se pessoas em lugares absolutamente inabitáveis, deixam-nas à própria sorte, é o abandono na sua mais pura acepção.
    Imagino o desespero das pessoas que lá estão, sem o menor amparo, sem a mais ínfima condição de recuperação. Sem esperança. E quando se perde a esperança, mermão…
    É somente o ato de retirada do ser e seu confinamento no inferno.
    A corrupção que reina nos presídios, a sujeira, o descaso são alucinantes. Reduz-se pessoas a algo inominável.
    Longe de mim defender os ataques, mas se eu estivesse nessas condições e tivesse algum modo de lutar eu o faria.

    Mariê em maio 15, 2009 12:17 PM

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    #3
    O Brasil é uma país curioso. Todos conhecemos o jargão que afirma que cadeia somente foi feita para os três pês; pobre, puta e preto. Onde está o curioso? Todos os últimos governos que tivemos colocaram o social como meta a ser atingida. O mote era a inclusão social. No entanto, para as nossas autoridades, os presidiários não pertencema à essa categoria de exclusos. Não há, pelo que se saiba, nenhum projeto que tenha como foco a solução do problema carcerário. Assim, é com orgulho que temos a melhor universidade do crime sendo mantida com verbas públicas. Quem passa pela experiência de conviver com os criminosos, ou sai lelé da cuca, ou comprometido com o crime. Não há terceira via.
    O fato é que criamos o país do discurso. As pessoas que executam estão, há muito, de férias.
    Nem precisaremos de livros de história para descrecer o absurdo que se vive numa prisão brasileira. Nossos netos terão a mesma visão do que hoje existe, se é que não terão piores.

    léo guedes em maio 15, 2009 12:52 PM

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    #4
    Nem precisa comentar que essa coisa de pedir mais repressão, mais polícia nas ruas, etc etc etc é política pra dar satisfação. Nunca irá resolver o problema, pois a coisa é muito mais estrutural do que conjuntural. Vai desde a legalização de drogas, que acabaria com o tráfico numa canetada só, até dar mais cultura, esporte, educação e cidadania para o povo.

    Aquele abraço

    Paulo em maio 15, 2009 1:21 PM

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    #5
    O Conectas DH produziu um bom material sobre os crimes de maio

    http://www.conectas.org/noticia.php?not_id=326&idioma=pt

    Abraço!

    Panóptico em maio 15, 2009 1:39 PM

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    #6
    Idelber,

    Matéria de hoje, que tem a ver com o assunto.
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    Corrupção policial incita crime, diz secretário
    Antonio Ferreira Pinto afastou 120 agentes de duas delegacias de SP por suspeita de envolvimento com crimes como extorsão

    No cargo há 57 dias, ele afirma que desmontará grupos especializados em rebeliões e roubos e que vai extinguir Delegacia do Idoso.

    Ferreira Pinto, que diz priorizar combate à corrupção

    MARIO CESAR CARVALHO
    DA REPORTAGEM LOCAL

    A Secretaria da Segurança de São Paulo afastou 120 policiais de duas delegacias por suspeitar que estão envolvidos em crimes de extorsão, corrupção e ligação com o crime organizado. O afastamento faz parte da política do novo secretário da Segurança, Antonio Ferreira Pinto, há 57 dias no cargo -que está no governo desde junho de 2006, quando assumiu a Administração Penitenciária.

    Sessenta dos afastados são do Denarc (Departamento de Investigações sobre Narcóticos) e o restante do Deic (Departamento de Investigações Sobre o Crime Organizado). O Denarc tem 388 policiais e o Deic, 1.173.
    No caso do Denarc, havia a suspeita de ligação de policiais com o tráfico de drogas.

    No segundo caso, a secretaria tinha indícios de que policiais da 2ª Divecar (Delegacia de Investigações sobre Furtos e Roubos de Veículos e Cargas), uma divisão do Deic, davam cobertura a ladrões de carga.
    Ferreira Pinto, 65, promotor e ex-capitão da PM, afirma que o combate à corrupção policial é uma de suas prioridades. Ele diz que uma das hipóteses para o aumento da criminalidade neste ano são desvios da polícia -no primeiro trimestre o latrocínio (roubo seguido de morte) subiu 36% e o roubo de veículos, 33%, sempre em relação ao mesmo período de 2008.
    “Só poderemos ter uma polícia eficaz no combate à criminalidade se reduzirmos os índices de corrupção que existem”, disse em entrevista à Folha.

    Sem citar nomes, o secretário faz referências à série de escândalos da gestão de seu antecessor, Ronaldo Marzagão, que foi afastado pelo governador José Serra (PSDB) por não conter a escalada da corrupção.
    O Denarc ficou famoso por elevar o padrão da propina cobrada de traficantes para um patamar acima de US$ 1 milhão. O megatraficante colombiano Juan Carlos Ramírez Abadía contou à PF em agosto de 2007 que policiais do Denarc tomaram cerca de US$ 1,2 milhão (pouco mais de R$ 2,4 milhões), mais dois veículos, para que ele não fosse preso.

    Outro caso do Denarc que virou motivo de piada foi a prisão do traficante colombiano Ramón Manuel Yepes Penagos, conhecido como El Negro.
    Apesar do sotaque espanhol, o colombiano ficou preso como se fosse brasileiro, com um RG de uma mulher de Borda do Campo (MG). Ele declarou à Polícia Federal ter pago R$ 400 mil à Polícia Civil. O próprio ex-chefe do Denarc, o delegado Everardo Tanganelli Jr., está sob investigação do Ministério Público sob suspeita de lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito. Ele ganha um salário de R$ 8.000 e teria um patrimônio de R$ 4,5 milhões, segundo promotores.
    Tanganelli Jr. foi substituído pelo delegado Eduardo Hallage, considerado pelo secretário como “um símbolo” da polícia. Ele ficou afastado seis anos da cúpula da polícia por se negar a prestar favores a seus superiores quando dirigia a academia.

    BMW é acinte!
    Ferreira Pinto diz que “é um acinte” delegado que vai trabalhar de BMW ou Audi, carros que não poderiam comprar com seus salários -R$ 7.000 em média para os que estão há dez anos no cargo.
    E diz não acreditar nos que justificam esse padrão dizendo ser donos de empresas de segurança. Para ele, muitas delas servem como fachada.
    O trabalho investigativo deve ser a prioridade da Polícia Civil, segundo Ferreira Pinto. Ele já começou o desmonte de setores especializados que considera desnecessários: o GOE (Grupo de Operações Especiais), criado para reprimir rebeliões, e o Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos). Eles só serão reagrupados quando houver necessidade.
    Cerca de 300 policiais desses grupos serão transferidos para delegacias com a missão de investigar, segundo o secretário.
    “Devemos investir maciçamente na polícia territorial e abandonar um pouco essa ideia de delegacia especializada. São Paulo tem até delegacia do idoso, que nada mais é do que um local de castigo para policiais que entram em conflito com setores da polícia”, diz.
    Devem ser extintas a Delegacia do Idoso e a Delegacia de Ordem Sindical e de Acidentes de Trabalho, “que dá ensejo a desvios policiais”. Será recriada a Delegacia do Consumidor, que tratará também de crimes ambientais e de saúde pública.
    Para o secretário, a investigação desse tipo de crime nos distritos criou uma distorção: os policiais deixaram de lado a apuração de crimes perigosos porque envolvem mais riscos.

    Mari em maio 15, 2009 2:02 PM
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    #7
    E a segunda matéria:

    Força de facção é um mito, diz secretário
    Antonio Ferreira Pinto (Segurança) diz que a polícia exagera sobre o poder do PCC para não ser questionada sobre crimes

    Para o secretário, hoje não existe a menor possibilidade de a onda de ataques criminosos de 2006 se repetir em São Paulo

    DA REPORTAGEM LOCAL

    Ex-secretário da Administração Penitenciária entre junho de 2006 e março deste ano, Antonio Ferreira Pinto (Segurança) ganhou fama pela capacidade de conter as explosões do PCC (Primeiro Comando da Capital) nos presídios.
    Usou como ferramenta de controle o monitoramento das conversas telefônicas, com autorização judicial, dos principais líderes da facção.
    É com esse currículo que ele diz ser um mito o poder do PCC: “A polícia exagera o poder dessa facção. Há interesses subalternos em torno dessa apreciação exagerada. É uma forma de a polícia não ser cobrada por outras atividades delituosas, como desvio de carga, adulteração de combustível e tráfico”.
    Hoje, segundo Ferreira Pinto, o que se chama de PCC “são 20, 30 presos perigosos, traficantes, que têm no celular uma grande arma, mas não têm condição nenhuma de colocar em xeque as instituições, como ocorreu em 2006” -quando São Paulo ficou paralisada por uma série de ataques.
    Para o secretário, esse cenário apocalíptico não tem a menor chance de acontecer novamente: “O Estado está aparelhado para dizer que os ataques de três anos atrás não vão se repetir. Qualquer facção criminosa que possa existir no sistema prisional está sob controle”.
    Ele diz que o exagero sobre o PCC não significa que não existam outros grupos envolvidos no crime organizado.
    Segundo o secretário, a lavagem de dinheiro deve ser objeto de uma nova delegacia e de cursos para os policiais.
    Uma das ideias é transformar o Denarc em delegacia de combate ao crime organizado, focada na lavagem de dinheiro.
    Até 2000, apesar de inúmeras ações atribuídas ao PCC, o governo paulista nem sequer admitia sua existência. Depois, quadros do governo passaram a minimizar a influência do grupo. Tal discurso se enfraqueceu em 2001, após uma megarrebelião ordenada pelos líderes da facção. (MARIO CESAR CARVALHO)

    Mari em maio 15, 2009 2:08 PM

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    #8
    O precário sistema de segurança brasileiro suscita em duas graves consequências que culminaram nos hediondos fatos ocorridos naquele trágico 12 de maio:

    – Tendo conhecimento destas falhas, os presos ousaram bater de frente com os policiais para demonstrarem o poder de união do PCC, resultando no medo vigente da população, como sempre, precocemente alardeada pela imprensa. Portanto, se sentiram ‘seguros’ para praticarem seus atos atrozes, como fazer reféns, roubar e assassinar diante de um sistema de policiamento precário;

    – E a polícia, insegura diante de um ato inesperado da facção criminosa, se viu obrigada a demonstrar serviço capturando o maior número possível de suspeitos, aludindo às capturas fascistas que tanto assombraram os ‘subversivos da ditadura’. Não apenas por questão de rótulo social, a polícia também quis demonstrar uma superioridade de poder, pois também estava em jogo sua eficácia como protetor da sociedade. Como Ferréz vociferou em seu blog, não tiveram escrúpulos para exterminar aqueles que faziam cara feia e ‘aparentemente’ integravam o PCC.

    E olha que o povo brasileiro, capaz de fazer piada de qualquer coisa que lhe salte a mente, não deixou escapar:

    “PCC manda mais que Lula…”

    Tiago Ferreira da Silva em maio 15, 2009 2:43 PM
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    #9
    Idelber, post fantástico.

    Acho que o post vem em momento extremamente oportuno. Afirmo isso, pois recentemente verificou-se um aumento na taxa de criminalidade no Estado de São Paulo. O governador José Serra afirmou que tratava-se de um ponto fora da curva, mas certamente pode não ser essa a verdade e pode ter a criminalidade aumentado em virtude principalmente da crise econômica.

    Um eventual aumento na taxa de criminalidade sugere duas coisas fundamentais.

    Primeiro, que a criminalidade é muito sensível a variações no emprego e na renda. Nesse caso, a sugestão é que existe uma massa de pessoas (possivelmente jovens, pouco educados e do sexo masculino) que não são necessariamente pobres mas que vivem em condições sócio-econômicas vulneráveis que podem incitá-los a se tornarem criminosos quando de uma recessão.

    Segundo, que a queda da criminalidade verificada no país (e especialmente em São Paulo) nos últimos anos em nada tem a ver com a eficiência no combate ao crime da polícia que executa “suspeitos” e entra atirando como expediente de combate ao crime e sim com o crescimento econômico, o aumento do nível de emprego e provavelmente mudanças demográficas.

    Nessa perspectiva, torna-se fundamental discutir duas questões. Primeiro a relação (tão usualmente negada ou colocada em segundo plano pela nossa direita) entre marginalização social, vulnerabilidade, pobreza e crime. Segundo a organização temerária de nossas forças policiais.

    Abs

    Arthur Bragança (coloco o sobrenome para me diferenciar de eventuais outros “Arthures” que por aqui comentam!)

    Arthur em maio 15, 2009 3:26 PM

    http://www.idelberavelar.com/archives/2009/05/tres_anos_de_uma_matanca_e_a_falencia_de_uma_politica_de_seguranca.php#comments

  • Antônio Pereira

    #50
    Apesar de todos as exortações da classe média radical de esquerda, 99,99% dos pobres brasileiros preferem levar uma vida honesta, e apostar nas possibilidades de ascensão social disponíveis. É verdade que apenas uma pequena minoria entre eles chegará ao nível médio de educação e renda das pessoas que escrevem nesse blog, mas a possibilidade de ascensão social até a classe média baixa (um movimento maciço durante o governo Lula, interrompido agora pela crise) lhes parece bem mais atraente do que viver intensamente a vida da criminalidade durante alguns anos e morrer ainda jovem.

    Talvez, para a classe média radical de esquerda, esses 99,99% dos brasileiros pobres sejam covardes. Eu prefiro pensar que eles têm valores semelhantes aos nossos, e que não lhes agrada matar, estuprar, roubar, etc, seja com que justificativa for.

    Mas talvez a parte mais importante e menos percebida desta questão é a de que o 0,01% opta pelo crime (pela “coragem de se rebelar contra o sistema”, segundo a fantasia da classe média radical de esquerda) é muito mais carrasco dos restantes 99,99% dos pobres que não optaram pelo crime do que dos ricos e da classe média.

    Números, números, já que eu sou um neoliberal empedernido que não consigo enxergar os seres humanos por trás das cifras. Vai de cabeça, sujeito a pequenos erros:

    O Rio de Janeiro tem cerca de 500 homicídios por mês. Além disso, curiosamente colocados numa estatística à parte, há os latrocínios, que oscilam em torno da faixa de 15 a 20 por mês.

    Daqueles 500 homicídios, grosso modo, 70% a 80% são jovens pobres do sexo masculino envolvidos com o crime matando jovens pobres do sexo masculino envolvidos com o crime. O restante é variado, e inclui mulheres, jovens pobres do sexo masculino mortos pela polícia, policiais mortos por jovens pobres do sexo masculino (muito menos que o item anterior), crimes passionais, brigas que desandaram, etc. Eu diria que pelo menos 95% dos assassinatos devem ser de pessoas pobres ou de classe média baixa (e muito mais dos primeiros do que dos segundos).

    Bem, o latrocínio é diferente, ele pega de fato a classe média e os ricos. Aliás, o latrocínio é o único tipo de homicídio que afeta o risco de ser assassinado de quase todo mundo que está lendo esse blog. Do meu ponto de vista pessoal e egoísta, caso eu morasse em São Paulo, a queda de 70% dos homicídios nos últimos nove anos não mudaria em nada a minha probabilidade de ser assassinado. Não é um tipo de crime que afeta a minha classe social. Já o latrocínio sim. Ouvi dizer que houve uma forte alta nos latrocínios em São Paulo no último ano. Do meu ponto de vista estrito, egoísta, de classe média alta, isto já me basta para dizer que a política de segurança de São Paulo é uma merda. Tem muitíssimo menos pobre sendo assassinado, mas a probabilidade de que EU seja vítima de homicídio aumentou. Às vezes eu me pergunto se não é exatamente esse elitismo dos formadores de opinião no Brasil que faz com que um fato da magnitude social e histórica da queda da taxa de homicídios em São Paulo seja praticamente ignorado.

    Mas, voltando à vaca fria, mesmo os latrocínios, ao contrário do que se pensa, não são indiferentes à hierarquia social. Há muitos pobres que são vítimas de latrocínio, e, principalmente, ele é muito mais comum em áreas de classe média baixa, ou operárias, do que nos bairros nobres. Façam uma pequena comparação nas páginas dos jornais do Rio entre latrocínios na zona Sul e na zona Norte e subúrbios. Mesmo descontado o fato de que a zona Sul tem muito menos população, vocês perceberão que a probabilidade de um morador da zona Norte e subúrbios ser vítima de latrocínio é provavelmente bem maior.

    Resumidamente, os homicídios incidem esmagadoramente mais entre os pobres. Como eu disse, uma grande parte deles se dá dentro do 0,01% que atendeu à convocação da classe média radical de esquerda à revolta romântica pela via do crime. Só que o fato de que esta escolha pelo crime aconteça, e tenha seus principais desdobramentos, dentro das comunidades pobres é um fator decisivo de degradação destas comunidades. A vida de todas as famílias de uma comunidade tomada pelo crime torna-se aterrorizante quando existe uma possibilidade pequena, mas longe de desprezível, de cooptação dos seus membros jovens para uma vida que, com grande possibilidade, acabará dentro de alguns anos com o jovem em questão sendo assassinado. Nestas comunidades, as adolescentes do sexo feminino estão à mercê da ação sexualmente violenta e predadora do 0,01% que fez a opção “corajosa e ética” pelo crime.

    É típica a história no Rio da patricinha do asfalto que se apaixonou pelo traficante e resolveu ir para a favela. Todas as patricinhas, no entanto, tem a opção tranqüila de NÃO fazer aquela escolha e, de fato, 99,99999% não fazem, porque para 99,99999% das mulheres, de qualquer classe social, se envolver com um bandido brutal e sem escrúpulos que provavelmente será assassinado em alguns anos, engravidar aos 15 anos, abandonar os estudos, etc e tal NÃO parece ser uma boa opção.

    Aquela tranquila alternativa das patricinhas, porém, não está disponível para as meninas que vivem em comunidades tomadas pelo crime. Lá, exige muita coragem (a verdadeira coragem) e estratégia pessoal não se envolver sexualmente com os criminosos e evitar todas as conseqüências ruins dessa escolha.

    Resumindo, o que a esquerda tem grande dificuldade de entender é que, se é justo para o 0,01% dos pobres se rebelar por não ter tido as mesmas chances da classe média e dos ricos, é totalmente injusto que esta forma de rebelião tenha como alvo de 99% da sua atuação penalizadora não aquela classe média e aqueles ricos, mas sim os 99,99% dos pobres que escolheram (covardemente, para alguns, mas temos que respeitar as opções numa sociedade democrática) não ingressar no crime

    F. Arranhaponte em maio 16, 2009 3:50 PM
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    #54
    O autoritarismo do poder público no Brasil, que apenas agora começa a mostrar sinais de arrefecimento, nos tornou uma sociedade cindida. Uma descrição dos presídios como essa deveria indignar qualquer ser humano mas o distanciamento artificial existente entre nós, e construído sobretudo com a ajuda da polícia, nos impede de nos colocarmos no lugar dessas pessoas que são tratadas como muitos animais de criação jamais seriam. Por mais ricas que sejam as descrições, elas não conseguem encontrar ressonância na sociedade que parece, antes, preferir massacres como os do Carandiru do que supor que poderia ser ela própria a estar se alimentando e defecando em saquinhos plásticos.
    Mas se os presídios ainda podem ser visitados, a despeito da pouca efetividade dessas visitas em termos de melhorias, as polícias de forma geral continuam a operar como verdadeiras caixas-pretas. Os dados que elas fornecem ou são maquiados ou tão generalizantes que deles muito pouco se pode concluir em termos de causas da violência. Essa não deveria ser uma das preocupações da polícia? Estudar aspectos sociológicos que apontem as causas da violência? Talvez até existam esses estudos, mas a face que a polícia nos mostra não é exatamente a de uma instituição preocupada com a prevenção dos crimes mas a da repressora criada para proteger a (grande) propriedade e não o cidadão.
    Acaba que filmes como Cidade de Deus, Tropa de Elite e talvez esse sobre o PCC assumem o papel de denúncia que caberia à imprensa. Esta, com as mesmas e honrosas exceções de sempre, continua a fazer de conta que o problema da violência policial não é com ela.

    Cláudia em maio 16, 2009 5:38 PM
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    #55
    João Vergilio, discussões éticas são complicadas. É claro que é possível justificar eticamente a criminalidade. Eu diria que é possível justificar eticamente quase qualquer coisa.

    Por exemplo, está cada vez mais claro que muitos comportamentos humanos, que a moral tracional tende a ver sob o prisma do puro livre arbítrio, são fortemente condicionados pela genética, ou por interações que ocorrem entre genética e meio-ambiente numa idade muito anterior a que consideramos como passível de cobrança moral. Isto inclui muitos comportamentos criminosos. Seria possível inocentar, do ponto de vista moral, um estuprador que tem uma compulsão em buscar agressivamente os seus desejos, fixada por uma combinação entre hereditariedade e meio-ambiente na tenra infância.

    Sempre haverá tensão ética em qualquer punição, mesmo na Suécia. Sempre é possível enxergar o crime pela lógica do criminoso, e quase sempre o criminoso tem algum mecanismo de escape moral – ele está sendo o agressor, mas, de alguma forma, isto deriva do fato de que alguma vez ele foi a vítima. Você pode me dizer que compete a nós julgar se a justificativa é válida ou não. Na Suécia, que é muito menos desigual, vale. No Brasil, não. Mas isto é um julgamento subjetivo seu. Alguém muito mais rigoroso (num certo sentido) pode achar que mesmo a desigualdade sueca pode justificar o crime. Alguém muito menos dirá que nem a desigualdade na pior das sociedades oligárquicas justifica. Não dá para você estender o teu limite entre uma coisa e outra como se fosse o limite geral.

    Assim, essa tensão moral da punição, que sempre existiu e sempre existirá, não impede sociedades sensatas de, com equilíbrio e bom-senso, estabelecer níveis de punição condizentes com a realidade e que atendam aos interesses gerais. No Brasil, tanto eu quanto você entendemos que os pobres, a grande maioria da população, são especialmente credores da história, e quando se pensa no “bem geral”, são eles fundamentalmente que devemos levar em consideração.

    O que eu busquei mostrar é que punir adequamente – de forma a desincentivar o crime – os 0,01% de pobres que optam por esse caminho (e, evidentemente, os ricos também) é o dever moral de uma sociedade que zela pelos 99,99% dos pobres honestos, e que se julga deles devedora. Esta é a questão moral maior neste debate. A tensão moral da punição, de qualquer punição, faz parte da condição humana, e com ela teremos sempre de conviver

    F. Arranhaponte em maio 16, 2009 6:02 PM

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    #56
    Olha Vergílio. Tenho o maior respeito pelas pessoas e tanto faz que sejam brancas, mestiças, pobres, ricas, religiosas ou não. O que estamos debatendo aqui são idéias e tão somente. Discordo visceralmente da sua visão colocando como ética a decisão de optar pelo crime. Do meu ponto de vista é indefensável a sua tese, para não dizer que ela é um absurdo. Penso que você perdeu a referência do que é certo ou do que é errado e isso não me causa nenhum maior susto, pois vivemos uma época do relativismo. Penso eu que pedofilia, num tempo muito curto, será aceita como uma conduta moderna para que as crianças entrem no mundo da sexualidade com experiência. Lembro-me da música de Caetano que dizia que era proibido probir. Já estamos chegando lá. Seria razoável acabar com o conceito de crime? Assim não teríamos mais o desprazer de discutirmos sobre o sistema carcerário, pois que ele seria desnecessário. Assim, de acordo com a sua visão, a vida teria o mesmo valor do dinheiro. A razão de ir buscá-lo por meio do crime estaria justificado, ainda que você o aceite sob a condição de um sistema capitalista. Penso que esse é o erro fundamental do socialista. Colocar a vida humana sob uma confusa visão. Ou ela vale alguma coisa e, portanto, matar é crime, ou não vale nada o que justificaria a tal ética que você enxerga no ato criminoso. E não afirme que estou me lixando para o meus semelhante. Tenho como convicção pessoal o humanismo e de tal maneira que abomino qualquer regime que imponha ao homem a escravidão. Mais ainda, cada um de nós tem o direito e o dever de procurar cada vez mais ser. E isso vale para qualquer pessoa. E a virtude, por mais que se a conteste, ainda é o melhor caminho para uma sociedade saudável.

    léo guedes em maio 16, 2009 6:07 PM

  • Antônio Pereira

    DENÚNCIA contundente de um professor!

    “Vejo isso diariamente em sala de aula. Os alunos que estão envolvidos com o tráfico tem enorme popularidade com as meninas, além de serem respeitados e copiados por outros alunos”

    #119
    Idelber e demais comentadores,

    O assunto é difícil, como a extensa caixa de comentários comprova… Vou dar minha humilde opinião, que é baseada somente em minhas impressões e no que presencio no dia-a-dia. Sou professor de História em São Paulo, trabalho em escola estadual. Diferentemente do que o Arranhaponte afirma, não são 0,01% das pessoas que se decidem pelo crime. Vejo isso diariamente em sala de aula. Os alunos que estão “envolvidos” com o tráfico tem enorme popularidade com as meninas, além de serem respeitados e copiados por outros alunos. Além do mais, se poucos “optam” por esse caminho, é pq não existem, como muitos querem, bons cargos de traficantes em qualquer lugar. A maior parte da rapaziada vira aviãozinho mesmo, o que não compensa a chance de ser preso/morto pela polícia/bandidos. Os números de presos também mostram isso. Em São Paulo, 0,27% da população está presa, e muitos mais praticam atividades criminosas, dada a ineficiência de nossa polícia… Isso sem contar os crimes cometidos por menores, que não entram nessa contabilidade. Ainda é um número insignificante, mas a tendência é que aumente cada vez mais. Além do mais, o mundo do crime não é como muitos imaginam, com oportunidades iguais para todos e salários altíssimos. Fosse assim, não sobrava um para empacotar as compras do mercado.

    Concordo totalmente com o João Vergílio quando ele diz q a criminalidade é justificável do ponto de vista ético dado as vicissitudes de nosso sistema capitalista. E pouco importa se a criminalidade está inserida no estado ou não. A experiência de frustração diante das desigualdades sociais atinge não apenas os muito ou totalmente excluídos. Atinge os pobres que não roubam, mas fazem gato na TV a cabo, e os quase ricos que sonegam imposto de renda. É óbvio que comparar um gato na TV com um assassinato desabona o autor da comparação, mas acredito que a lógica é a mesma: “Eu não tenho, embora trabalhe ou tenha tentado trabalhar tanto quanto os que tem. Logo, farei um gato/assaltarei, e caso haja resistência, antes ele do que eu.” Acho, inclusive, que se rouba e mata muito pouco no Brasil, dadas as circunstâncias em que a população vive. Isso não quer dizer que eu ache correto fazer esse tipo de coisa, mas que é justificável, é.

    Tenho as seguintes perguntas para vcs:

    Algum dos que aqui postaram, se vivesse na mais absoluta miséria, hesitaria um só segundo em roubar ou traficar?

    Caso a sua resposta seja “sim”, ela estaria baseada em preceitos religiosos, familiares ou filosóficos?

    Eu, sinceramente, não sei como responderia a essas questões. Se por um lado acho errado matar, por outro não me conformo que alguns possam ter uma vivência completa, cheia de fruições, enquanto outros vivem um inferno na terra. Para mim, portanto, é justificável que se roube/mate em um país tão desigual, mesmo sendo errado matar.

    Um segundo ponto, que complica mais as coisas, é o motivo pelo qual se quer tanto o dinheiro, o que leva alguém a roubar e matar. O consumo exagerado a que estamos submetidos pela propaganda incessante televisiva é muito, mas muito fútil. Vive-se bem sem praticamente nada do que é anunciado. Mas, sem a ilusão de que o consumo irá te confortar, quem vai aceitar meio salário mínimo pra empacotar as compras?

    Finalizando, que já escrevi demais. É justificável que se roube, assim como é justificável, e necessário, que se reprima o roubo, do ponto de vista do funcionamento de um sistema capitalista como o nosso. Sendo assim, das duas uma: ou a esquerda esquece de vez esse assunto e trata de garantir melhor distribuição de riqueza – como vem sendo feito, em parte, pelo governo Lula – ou damos ouvidos ao pessoal do “cansei” e repetimos como mantras frases do tipo: “Como poderemos ir aos bares de moema se miseráveis insistem em fazer sequestros relâmpagos conosco? Onde está a polícia? Quando esses malditos flanelinhas deixarão de me achacar toda vez que vou a um show? Qdo vão retirar esses catadores de latas fedorentos de eventos como a virada cultural?”

    Isso é ridículo. Eu fico com a primeira opção. Ou a desigualdade social diminui, e muito, ou a violência só vai aumentar. Sendo assim, a única coisa sensata a ser feita é melhorar as condições sub-caninas dos presídios enquanto a concentração de renda não arrefece. Melhorar a educação trará benefícios daqui 10, 20 anos, mais um motivo para que as mudanças sejam feitas agora. Qdo as desigualdades forem menores, pode-se discutir se devemos penalizar ou reeducar os presos. Qto ao suposto dilema da esquerda, acho que a posição adotada pelo Lula na questão Segurança Pública diz tudo. Não vai interferir. Os estados que se virem, já que não vai adiantar nada mesmo…

    Abraços!

    David Neto em maio 18, 2009 8:18 PM

    http://www.idelberavelar.com/archives/2009/05/tres_anos_de_uma_matanca_e_a_falencia_de_uma_politica_de_seguranca.php#comments

    (Aqui termina uma colaboração sobre esta matéria crucial para a compreensão de nossa segurança individual na sociedade brasileira)

    • Antônio Pereira

      Friendly to: Daniel Duende and Paula Góes

      When will you begin (take the first step) to translate all this sorted true comments about individual security inside the brazilian nation and the policies surrounding them? In such a way that the whole world can know our reality too!

      The benefit? Help rationalize the course of action of a brazilian government on the subject. It’s something that aids or promotes a sense of well-being “for the common good.” Yes, I believe in the following: “A melhor forma de encontrar e desenvolver pontes entre culturas é trabalhando em prol de um desafio comum. O Global Voices Online dá um passo neste sentido ao fomentar a tradução das vozes globais através das blogosferas locais.” (Yes, we can foster this action or good seed)

      My Best Regards

      P.S. Why not to start here at this point? High level discussion on the subject of day to day educational classes from a teacher point of view.

      • Olá Antônio,

        venho acompanhando seus excelentes comentários, e estava mesmo pensando que seria bacana apresentar isso para os públicos internacionais. Se você estiver interessado, posso colocar você em contato com a editoria de língua portuguesa do Global Voices Online para que você mesmo possa fazer esta tradução.

        Abraços do Verde

        • Antonio Pereira

          Prezado Daniel,

          São 122 comentários. Eu selecionei alguns, não tenho experiência suficiente para tal empreitada, embora leia melhor em inglês do que escrevo. Além do que, isto demanda bastante tempo.

          Vamos continuar em contato!

          Se vc puder disponibilize ao menos este post emblemático encaminhado pelo professor.
          “And Besides”, o que a Paula Góes pensa sobre esta sugestão?

          Sds

          • Prezado Antônio,

            É mesmo uma grande quantidade de material. Material bem interessante e relevante, mas ainda assim bastante volumoso, cuja tradução e articulação em um artigo demandaria mesmo muito tempo. Apresentamos a pauta à equipe, mas até agora ninguém teve disponibilidade de pegá-la. Estão todos envolvidos na produção de várias outras matérias. Por isso convidamos você para colaborar, já que você já está “com a mão na massa”.

            A Paula Góes está curtindo o finalzinho de suas mais do que merecidas férias, e por isso talvez não possa fazer muito a respeito neste momento. Vou passar o recado para ela, de qualquer forma.

            Abraços do Verde

             
  • Antônio Pereira

    O programa: Minha casa Minha Vida, parece ser a solução!

    “Nas antigas grandes cidades, as favelas já existiam; eram os lugares para onde os ex-escravos foram mandados, assim como lúcifer foi afastado do céu, essa gente, por certo, não poderia viver ao lado de gente de bem. De repente, a favela passou a ser habitada.”
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    #46
    O modelo inaugurado no início da industrialização brasileira – e piorado pelos militares – implicava no deslocamento de milhões de pessoas do campo para a cidade, onde eles iriam servir como mão-de-obra barata, tanto como operários fabris quanto como operários da construção civil.

    Vieram aos montes, ganhando pouco e destinados a viver em áreas periféricas. Na Brasília modernosa do presidente bossa-nova e do arquiteto comunista, os operários foram chutados após sua construção e se agruparam como puderam no cerrado. A capital federal do Brasil moderno já nasceu sem saber o que fazer com seus trabalhadores.

    Nas antigas grandes cidades, as favelas já existiam; eram os lugares para onde os ex-escravos foram mandados, assim como lúcifer foi afastado do céu, essa gente, por certo, não poderia viver ao lado de gente de bem.
    De repente, a favela passou a ser habitada, principalmente no Rio e em São Paulo, por gente que vinha do Brasil rural. A favela foi transformada em campo de confinamento de ex-escravos para o local de habitação provisória de onde o trabalhador, quando subisse na vida, se mudaria. O detalhe é que isso jamais aconteceu.

    Essa favela de segunda geração assim como os subúrbios se tornaram a cara do Brasil urbano dos anos 60/70/80; o lugar onde o Brasileiro pobre, às voltas com o racionamento de alimentos via inflação, mantinha, com seu parco salário, sua familiazinha nuclear patriarcal onde seus filhos faziam o primário e, quem sabe, um curso de torneio mecânico no Senai.

    As coisas degringolaram nos anos 90. A abertura e a modernização da economia nacional pelas mãos dos gênios iluminados Dom Fernando I e – principalmente – Dom Fernando II e seus conselheiros neoliberaisocialdemocratas desconstruíram a velha – e falida – ordem, mas nada construíram.
    Nos escombros do nacional-“desenvolvimentismo” recém-demolido os vermes e os ratos proliferavam ganhando bilhões com a privataria, enquanto os trabalhadores, outrora oprimidos, se tornaram excluídos.

    Quem precisa de trabalhadores num capitalismo que não vive de produção? Eis aí que nasce a favela de terceira geração, o campo de concentração eterno no qual estariam condenados a vagar perpetuamente os que lá já estavam e para onde foram mandados aqueles que já não serviam mais para o mundo da boa gente.

    Se até os anos 80 seu dinheirinho não valia nada e era bom que você gastasse ele logo para não virar pó, nos anos 90 você é que não valia mais nada e o dinheiro passou a ser tudo. No Brasil bisonho de sempre, as lógicas de desumanização das relações pessoais e da tecnificação da vida do mundo em globalização tiveram um impacto profundo.

    É na favela brasileira da terceira geração onde nasce o fenômeno de violência contemporâneo. Não há mais esperança, as familiazianhas nucleares patriarcais acabaram, a gravidez na adolescência proliferou, a escola pública foi acabada, só resta se drogar para morrer aos poucos…mas já não estamos mortos?

    É no país das favelas eternas e das prisões superlotadas em que aconteceu, em seu principal estado, os ataques de uma organização criminosa e a reação contra eles. Um massacre consentido, sem dúvida. A guerra de pobres contra os pobres: policiais mal-remunerados que vivem na favela versus marginalizados favelados.

    Em São Paulo, por ora, o problema se mantém sob os panos quentes da repressão, mas o PCC está em toda parte, se infiltrando cada vez mais, inclusive na polícia que um dia o massacrou e por quem foi massacrado. As coisas estão silenciosas, como estavam antes do primeiro ataque. No Rio, o BOP e seus caveirões não conseguem o mesmo.

    No Brasil de Lula, a favela da terceira geração conseguiu comprar suas bugigangas às custas de 364 prestações mensais e viu alguns de seus filhos entrando na universidade. Achamos o fundo do poço, por ora, uma evolução. Os que viviam pior, ao menos não morrem de fome como morriam antes. Mas a favela ainda está lá, eterna, profunda e escura.

    Hugo Albuquerque em maio 16, 2009 2:25 PM

    http://www.idelberavelar.com/archives/2009/05/tres_anos_de_uma_matanca_e_a_falencia_de_uma_politica_de_seguranca.php#comments

  • Canal Livre (24/05/2009)

    CANAL LIVRE, Programa exibido no domingo (24/05/2009)

    O senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL) foi o entrevistado do domingo (24/5) do programa Canal Livre exibido pela rede Band às 23h30. Apresentado pelos jornalistas Joelmir Beting, Fernando Mittre e Antônio Teles, o Canal Livre tem cerca de 1 hora de duração.

    Fernando Collor de Mello – parte 1 a 5
    http://www.band.com.br/canallivre/videos.asp

    TRANSCRIÇÂO PARCIAL DA ENTREVISTA

    Discurso afirmativo por reformas político-institucionais; favorável ao mandato presidencial de 05 (cinco) anos, sem reeleição, pela alternância no poder. Em tese é parlamentarista para um cenário distante, como conseqüência da evolução natural do sistema de governo.

    Afirmativo por cláusulas pétreas que não sejam modificadas a cada ano que precede a eleição.

    A modificação que tem que haver na legislação eleitoral e na legislação partidária, por exemplo: o voto em lista fechada, financiamento público de campanha. Sendo que o financiamento público de campanha não pode acontecer se não houver lista fechada para qualificar a representação parlamentar. É favorável à revisão de todo este “Arcabouço de Legislação e de Partidos”, que não funciona! “Este sistema não serve, não é bom.”

    Entretanto, o voto em lista fechada não vai passar! Cada um dos que ali estão vão olhar e dizer: “Em que ponto esta modificação vai me prejudicar ou vai me ajudar?” Se vai me prejudicar, eu sou contra, eu não voto a favor disso.

    Intensificação de “Centros de Ensino Integral” ou (Centros Integrados de Apoio a Criança (CIACs), nos moldes do ex-senador Darcy Ribeiro e também do ex-governador Brizola. Esta é a maneira de nós sairmos desse estágio em que nos encontramos de violência juvenil, da questão das drogas, tudo se resolve. O combate á miséria, saída das crianças e adolescentes das ruas, do consumo de drogas é a escola de boa qualidade, Escola Integral.

    Afirmou: “Eu estou certo ao fazer parte da base de sustentação do Governo Lula, que vem realizando uma excepcional administração a favor de todos os brasileiros. A começar daqueles que mais necessitam.”; “Fui eleito por apoio do segmento popular da nação brasileira”

    HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL
    Cieps e Ciacs – a Educação Como Prioridade!
    O Governo Collor de Mello, em 1990, lança o projeto de construção de Centros Integrados de Apoio à Criança – CIACs, em todo o Brasil, inspirados no modelo dos Centros Integrados de Educação Pública – CIEPs, do Rio de Janeiro, existentes desde 1982.

    http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/heb11.htm

  • Lobo Jr.

    Tudo se resolve a partir da Escola de boa qualidade, Escola Integral.

    Leia-se: Intensificação de “Centros de Ensino Integral” ou (Centros Integrados de Apoio a Criança (CIACs). Esta é a maneira de nós sairmos desse estágio em que nos encontramos de violência juvenil, da questão das drogas, tudo se resolve, combate á miséria, saída das crianças e adolescentes das ruas, do consumo de drogas. Tudo se resolve a partir da Escola de boa qualidade, Escola Integral.

    Parabéns ao senador Collor de Mello!

  • sonia

    olá! Me desculpem intrometer em suas conversas…sou portuguesa, vivi 2 anos em Floripa, SC..meu marido e brasileiro e a minha filha(tenho dois) também nasceu la. Moramos em Portugal mas estamos pensando em voltar para o Brasil. Sou uma cinéfila e devo dizer que de todos os filmes que vi na vida Carandiru foi o que me chocou mais pela sua realidade. É impressionante como existe tanta injustiça no Brasil, não que não exista pelo mundo afora, mas por exemplo ver meninos catando lata no lixo para sobreviver foi para mim chocante (isso é mínimo para vcs acho) mas eu cada vez que passava na rua e via uma cena dessas, isso me comia por dentro…devo dizer que nunca me acostumei com tanta diferença social e nunca soube ignorar e ser indiferente a isso…O vosso país e lindo..por dentro e por fora como dizemos por aqui. É o país do futuro, e o lugar por onde andei (conheço alguns países) onde senti mais calor humano..é um pais gigante do tamanho da Europa, por isso acredito que seja dificil controlar a nível jurídico e politico…num ponto que concordo é que muita coisa deveria começar pela Educação. Pessoas instruídas ajudam a um pais melhor, aumentam a produtividade e diminuem a criminalidade, também tem mais conhecimento sobre seus direitos e deveres (talvez interesse ao Governo ter parte da população analfabeta rsrsrsrs). Cabe a nos todos não deixar passar a injustiça e lutar pelos nossos direitos básicos, aqueles que estão na Constituição de qualquer país, mas que não são cumpridos. Isto não só a um nível nacional, mas sim a nível global. Mesmo assim continuo acreditando que o Brasil é o país do futuro…
    ” O Homem não morre quando deixa de viver, mas sim quando deixa de amar.” C. Chapin
    Cumprimentos

  • jubileu antonio

    eu odeio policia do fundo do meu coração todos eles

    sóh servem p/ atrapalhor a nossa vida

    desejo q eles todos MORREM…

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