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Timor Leste: Democracia sob cerco

Categorias: Leste da Ásia, Timor Leste, Governança, Guerra & Conflito, Protesto, Relações Internacionais

A tentativa de assassinato dessa segunda feira [1] seria, presumivelmente, seguida por um golpe militar e político. Hoje, terça-feira, o Vice-Presidente Vicente Gutterres anunciou um toque de recolher obrigatório e dois dias de estado de emergência num pronunciamento na TV. Cento e vinte soldados e 70 policiais federais australianos enviados para ajudar com a segurança e manutenção da paz começaram a chegar em Díli na mesma tarde.

O Presidente do Timor Leste José Ramos-Horta foi baleado ontem de manhã, na frente de sua casa, e mais tarde transferido para Darwen, cidade do norte da Austrália para tratamento médico. Sua condição é descrita como “extremamente grave, mas estável”. O Primeiro-Ministro do país Xanana Gusmão escapou ileso de um outro ataque logo após o tiroteio na casa de Ramos-Horta. Já Major Alfredo Reinado, um dos 600 soldados demitidos pelo governo em 2006, foi morto a tiros dentro da residência do presidente, e de acordo com seus seguidores cerca de uma hora antes do ataque a Ramos-Horta.

Blogueiros estão ocupados relatando as ocorrências em campo, repercutindo notícias, tentando obter mais informações e se preocupando com o futuro da democracia na pequena ilha, que só foi declarada Estado independente em 2002. Margarida [2] publica um vídeo do usuário no YouTube rincondelucha [3] que mostra uma entrevista com Major Alfredo Reinado, disponibilizada um dia antes de sua morte, onde ele diz que está preparado para sacrificar sua vida pelo seu povo e seu país. A entrevista foi feita em inglês:

Lena Lorosae [4] deixa uma questão para reflexão dos leitores:

A quem interessava “decapitar” o sistema político vigente em Timor, com o Presidente do Parlamento fora do país ?… Dá que pensar…

Timor Online [5] acrescenta mais algumas perguntas ainda sem respostas:

Quantos furos de bala tinham os três carros que foram emboscados da comitiva de Xanana Gusmão, depois do ataque a Ramos-Horta, incluindo aquele em que seguia, o tal que “foi completamente destruído”?

Quem alvejou Ramos-Horta, que foi encontrado de bruços, atingido pelas costas, na rua à porta da sua casa? Porque quando lá chegou, já Alfredo Reinado estava morto dentro de casa no jardim com um tiro no olho e outro na mão…

Perguntas difíceis de fazer?!

Timor Online [6] está compilando notícias tanto em inglês e quanto em português, sobre o incidente. Entre eles, há uma da agência Lusa sobre as críticas feitas pela ex-embaixadora portuguesa na Indonésia e membro do Parlamento Europeu, Ana Gomes, ao Major Alfredo Reinado, que de acordo com ela era “um criminoso e indivíduo desequilibrado” com quem as autoridades timorenses, australianas e da ONU lidaram de forma “demasiadamente apaziguadora” e, portanto, são culpadas pelo que aconteceu. Ela lembrou que Reinado foi a figura central da crise política e militar de maio de 2006. Um comentário deixado nessa postagem por H correia [7] diz que ela demorou um pouco demais a reagir contra a situação política atual do país:

Durante cerca de um ano e meio, este e outros blogues,bem como muitas indivualidades timorenses andaram a dizer isto mesmo, perante o autismo irredutível de RH, XG, Atul Khare, comandantes australianos, e… o silêncio da Lusa, da imprensa portuguesa e da própria Ana Gomes. É pena só agora a Srª eurodeputada ter dito isto. Agora é tarde e é fácil ir com a maré. Devia ter falado há mais tempo, quando esteve tão calada perante as ilegalidades cometidas por XG e RH.

(RH = Ramos Horta, XG=Xanana Gusmão, Atul Khare é o representante das Nações Unidas em Timor Leste)

Ao publicar a notícia de que o Primeiro-Ministro Kevin Rudd vai voar para Timor Leste nesta semana após reforçar presença militar da Austrália em resposta à crise, Timor Online [8] [pt] deixa uma nota de rodapé:

Como será possível alguém acreditar que mais umas centenas de incompetentes de militares australianos e polícias federais, conhecidos pela sua falta de respeito às instituições timorenses, alvos de queixas e processos crime por desrespeito e desobediência ao sistema judicial timorense, vão resolver o que quer que seja?

Mane Kribas, do Timor Lorosae Nação [9] também está certo de que o Timor não precisa de ajuda da Austrália:

NÃO, NÃO PRECISAMOS DE MAIS MILITARES AUSTRALIANOS EM TIMOR-LESTE, precisamos, isso sim, de esvaziar substancialmente o seu domínio para que venham para Timor militares competentes de países insuspeitos de nos quererem fazer seu capacho.

Cláudio Francisco [10] que morou em Timor Leste quando o país ainda era uma antiga colônia de Portugal, diz que é hora das pessoas acordarem:

Os últimos acontecimentos em Timor não são de todo uma grande surpresa, pois algo estava na forja há muito tempo. A surpresa foi a magnitude das ações. Esta é uma opinião minha e formada a partir de detalhes conhecidos através da imprensa internacional nas notícias de última hora e que associei ao que de estranho se passou durante muito tempo com relação ao major Reinaldo. Afinal, foragido da Justiça e conhecido o seu paradeiro por muita gente importante, porque razão nunca se colocou côbro a essa situação esdrúxula? Será porque os australianos lhe davam cobertura?— Mas, se assim é, a gravidade da situação é muito maior, pois deduz-se haver conivência no que se passou agora. Muita coisa terá que ser descortinada e os timorenses teem direito de saber o que acontece no seu País.

Histórico

Timor Leste [11], uma antiga colônia portuguesa com quase 1 milhão de habitantes, é a mais nova nação da Ásia, tendo conquistado a independência da Indonésia em 2002. Ramos-Horta, 58 anos, ganhou o Prêmio Nobel da Paz 1996 por sua resistência pacífica à ocupação pela Indonésia, lutando no exílio para destacar a presença militar da Indonésia em seu país. Antes da ocupação, Timor-Leste tinha sido colônia de Portugal desde o século 16.

Em Março de 2006, houve um surto de violência e agitação política em Díli, quando as forças de segurança mataram cinco pessoas, o que, por sua vez, deflagrou vários dias de violência, motins e pilhagem. Mais de mais de 150.000 foram deslocadas e 37 morreram entre Abril e Maio de 2006 por causa de confrontos entre facções dentro das forças de segurança timorenses.