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Timor Leste: Democracia sob cerco

A tentativa de assassinato dessa segunda feira seria, presumivelmente, seguida por um golpe militar e político. Hoje, terça-feira, o Vice-Presidente Vicente Gutterres anunciou um toque de recolher obrigatório e dois dias de estado de emergência num pronunciamento na TV. Cento e vinte soldados e 70 policiais federais australianos enviados para ajudar com a segurança e manutenção da paz começaram a chegar em Díli na mesma tarde.

O Presidente do Timor Leste José Ramos-Horta foi baleado ontem de manhã, na frente de sua casa, e mais tarde transferido para Darwen, cidade do norte da Austrália para tratamento médico. Sua condição é descrita como “extremamente grave, mas estável”. O Primeiro-Ministro do país Xanana Gusmão escapou ileso de um outro ataque logo após o tiroteio na casa de Ramos-Horta. Já Major Alfredo Reinado, um dos 600 soldados demitidos pelo governo em 2006, foi morto a tiros dentro da residência do presidente, e de acordo com seus seguidores cerca de uma hora antes do ataque a Ramos-Horta.

Blogueiros estão ocupados relatando as ocorrências em campo, repercutindo notícias, tentando obter mais informações e se preocupando com o futuro da democracia na pequena ilha, que só foi declarada Estado independente em 2002. Margarida publica um vídeo do usuário no YouTube rincondelucha que mostra uma entrevista com Major Alfredo Reinado, disponibilizada um dia antes de sua morte, onde ele diz que está preparado para sacrificar sua vida pelo seu povo e seu país. A entrevista foi feita em inglês:

Lena Lorosae deixa uma questão para reflexão dos leitores:

A quem interessava “decapitar” o sistema político vigente em Timor, com o Presidente do Parlamento fora do país ?… Dá que pensar…

Timor Online acrescenta mais algumas perguntas ainda sem respostas:

Quantos furos de bala tinham os três carros que foram emboscados da comitiva de Xanana Gusmão, depois do ataque a Ramos-Horta, incluindo aquele em que seguia, o tal que “foi completamente destruído”?

Quem alvejou Ramos-Horta, que foi encontrado de bruços, atingido pelas costas, na rua à porta da sua casa? Porque quando lá chegou, já Alfredo Reinado estava morto dentro de casa no jardim com um tiro no olho e outro na mão…

Perguntas difíceis de fazer?!

Timor Online está compilando notícias tanto em inglês e quanto em português, sobre o incidente. Entre eles, há uma da agência Lusa sobre as críticas feitas pela ex-embaixadora portuguesa na Indonésia e membro do Parlamento Europeu, Ana Gomes, ao Major Alfredo Reinado, que de acordo com ela era “um criminoso e indivíduo desequilibrado” com quem as autoridades timorenses, australianas e da ONU lidaram de forma “demasiadamente apaziguadora” e, portanto, são culpadas pelo que aconteceu. Ela lembrou que Reinado foi a figura central da crise política e militar de maio de 2006. Um comentário deixado nessa postagem por H correia diz que ela demorou um pouco demais a reagir contra a situação política atual do país:

Durante cerca de um ano e meio, este e outros blogues,bem como muitas indivualidades timorenses andaram a dizer isto mesmo, perante o autismo irredutível de RH, XG, Atul Khare, comandantes australianos, e… o silêncio da Lusa, da imprensa portuguesa e da própria Ana Gomes. É pena só agora a Srª eurodeputada ter dito isto. Agora é tarde e é fácil ir com a maré. Devia ter falado há mais tempo, quando esteve tão calada perante as ilegalidades cometidas por XG e RH.

(RH = Ramos Horta, XG=Xanana Gusmão, Atul Khare é o representante das Nações Unidas em Timor Leste)

Ao publicar a notícia de que o Primeiro-Ministro Kevin Rudd vai voar para Timor Leste nesta semana após reforçar presença militar da Austrália em resposta à crise, Timor Online [pt] deixa uma nota de rodapé:

Como será possível alguém acreditar que mais umas centenas de incompetentes de militares australianos e polícias federais, conhecidos pela sua falta de respeito às instituições timorenses, alvos de queixas e processos crime por desrespeito e desobediência ao sistema judicial timorense, vão resolver o que quer que seja?

Mane Kribas, do Timor Lorosae Nação também está certo de que o Timor não precisa de ajuda da Austrália:

NÃO, NÃO PRECISAMOS DE MAIS MILITARES AUSTRALIANOS EM TIMOR-LESTE, precisamos, isso sim, de esvaziar substancialmente o seu domínio para que venham para Timor militares competentes de países insuspeitos de nos quererem fazer seu capacho.

Cláudio Francisco que morou em Timor Leste quando o país ainda era uma antiga colônia de Portugal, diz que é hora das pessoas acordarem:

Os últimos acontecimentos em Timor não são de todo uma grande surpresa, pois algo estava na forja há muito tempo. A surpresa foi a magnitude das ações. Esta é uma opinião minha e formada a partir de detalhes conhecidos através da imprensa internacional nas notícias de última hora e que associei ao que de estranho se passou durante muito tempo com relação ao major Reinaldo. Afinal, foragido da Justiça e conhecido o seu paradeiro por muita gente importante, porque razão nunca se colocou côbro a essa situação esdrúxula? Será porque os australianos lhe davam cobertura?— Mas, se assim é, a gravidade da situação é muito maior, pois deduz-se haver conivência no que se passou agora. Muita coisa terá que ser descortinada e os timorenses teem direito de saber o que acontece no seu País.

Histórico

Timor Leste, uma antiga colônia portuguesa com quase 1 milhão de habitantes, é a mais nova nação da Ásia, tendo conquistado a independência da Indonésia em 2002. Ramos-Horta, 58 anos, ganhou o Prêmio Nobel da Paz 1996 por sua resistência pacífica à ocupação pela Indonésia, lutando no exílio para destacar a presença militar da Indonésia em seu país. Antes da ocupação, Timor-Leste tinha sido colônia de Portugal desde o século 16.

Em Março de 2006, houve um surto de violência e agitação política em Díli, quando as forças de segurança mataram cinco pessoas, o que, por sua vez, deflagrou vários dias de violência, motins e pilhagem. Mais de mais de 150.000 foram deslocadas e 37 morreram entre Abril e Maio de 2006 por causa de confrontos entre facções dentro das forças de segurança timorenses.

1 comentário

  • Permita-me uma observação a um comentário aqui transcrito referente à doutora Ana Gomes. De facto, a doutora Ana Gomes nunca esteve calada, só não podia falar contra as tais ilegalidades, já que, foi conivente e defendeu-as no seu blog na altura, incitando Xanana Gusmão a demitir Alkatiri.

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