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Brasil: Blogues ajudam a polícia a protestar e a se mobilizar

Tenente Melquisedec Nascimento, blogueiro desde abril de 2007, relata que quatro oficiais da Corregedoria de Polícia, um departamento especial que investiga crimes cometidos por militares, visitaram a sua casa no fim de semana passado. De acordo com ele, essa visita foi consequência de uma ordem por parte do Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, de que o blogueiro fosse ouvido e preso imediatamente. Cláudio Humberto deu a notícia algumas horas após o pedido de prisão:

O governador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) determinou na tarde deste sábado que a Corregedoria interna da PM ouvisse e prendesse o presidente da Assosiação dos Miltares Auxiliares e Especialistas (Amae), tenente Melquisedec Nascimento, que em seu blog Militar Legal mostrou fotos do governador com chapéu e nariz de Pinóquio. O tenente não foi encontrado. O advogado dele e da Amae diz que a medida é “absurda, arbitrária e antidemocrática, pois meu cliente preside uma entidade de classe, com direito à liberdade de expressão de seus associados garantida pela Constituição”.

De acordo com o tenente Nascimento, que ainda está blogando em liberdade, Cabral ficou profundamente irritado com uma montagem em foto e um vídeo postados no blogue Militar Legal, onde o governador é caracterizado de Pinóquio. Na sequência do pedido de prisão, muitos outros blogueiros publicaram a mesma imagem em solidariedade ao tenente. Outros foram além, de Pinóquio a Hitler. Cláudia foi uma entre muitos blogueiros que protestaram publicando mais uma montagem usando uma foto de Sérgio Cabral:

Uma coisa eu tenho certeza, o nosso governador nunca mais terá os votos dos policiais militare (de verdade) e de suas famílias, contudo isso não deve abalar em nada as suas próximas campanhas, são só 110.000 votos, contando só com mulher e filhos, se for contar com a familia toda do policial militar o numero de votos passa de 200.000. Infelizmente esse é o modo que nosso “fiher” achou certo de fazer em seu primeiro mandato como ditad…governador. Parabéns senhor, nunca o esqueceremos! Hae Sérgio Hitler Cabral!!!!!

Uma cruz foi colocada nas areias de Copacabana para cada policial morto nos últimos cinco anos, no dia 1º de fevereiro: no total, são 586 cruzes. Foto de Thiago Velloso

Em uma das cidades mais violentas do mundo, um policial militar em início de carreira ganha US$ 500,00 por mês e depois de 30 anos de serviço acabará com um salário mensal de US$ 3.500,00, de acordo com Tenente Nascimento. Eles reivindicam um salário inicial de US$ 1.500,00 e melhores condições de trabalho para conduzir uma tarefa extremamente perigosa: no confronto com traficantes de drogas e gangues são perdidads cerca de 10 vidas por mês do lado dos policiais, e eles reclamam que faltam condições adequadas para que o trabalho seja conduzido em segurança.

Em uma postagem chamada ‘O Rio de Janeiro esta de luto’, coronel Paulo Ricardo Paúl faz uma homenagem à últimas dessas vítimas, um jovem cadete assassinado no domingo passado, enquanto voltava para casa ao fim do plantão de carnaval. Segundo dois colegas que conseguiram escapar ao ataque, os assassinos sabiam que eles eram policiais e queriam as armas, mas como cadetes eles não tinham porte para carregar armas:

O Rio de Janeiro perdeu mais um herói social, um jovem idealista que tinha escolhido ser um herói na defesa da sociedade fluminense. Um jovem que sonhava servir e proteger o cidadão. Uma vida ceifada pela covarde violência urbana que se multiplica pela nossa cidade.

Por outro lado, a polícia enfrenta críticas por parte de grupos de direitos humanos por causa da matança indiscriminadas nas favelas. Apenas no ano passado, um recorde de 1.260 civis foram mortos em confrontos com a polícia, segundo dados da Secretaria de Defesa Social do Rio de Janeiro. Na quarta-feira véspera de Carnaval, pelo menos seis pessoas foram mortas em uma operação contra o tráfico de drogas enquanto a polícia fazia uma batida nas favelas.

Há uma crise permanente causada pelos baixos salários e péssimas condições de trabalho, que se intensificou nos dias que antecederam o Carnaval. Um pouco mais de 50 oficiais pediram demissão e 11 pessoas foram exonerados de cargos de confiança, dentre as quais outro blogueiro, Major Wanderby Braga de Medeiros, e o comandante da PM, Col. Ubiratan Angelo, que foi exonerado do cargo pelo governador do estado, Sérgio Cabral, por permitir protestos por melhores salários. Essas demissões polêmicas não foram injustificadas, segundo o governo do estado, já que a polícia miliar segue as mesmas regras disciplinares que o exército. Ao contrário da polícia civil, os militares não têm direito a se sindicalizarem ou fazer greves. Mas agora eles podem blogar.

E cada vez mais e mais policiais, de todos os escalões e estados brasileiros, estão descobrindo isso. Eles usam blogues para disseminar notícias sobre futuras assembléias e para mobilizar policiais de maneira rápida, para fazer com que a população saiba de suas reivindicações e para comentar reportagens publicadas pela imprensa, além de para produzir seu próprio jornalismo independente. Alexandre de Souza cita o Secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, que de acordo com blogueiros teria tido: “Não vamos admitir que façam reivindicações fora do tom, usando sites e blogs”. Souza pede que outros policiais blogueiros não calem suas vozes, mesmo se tiverem que enfrentar retaliação por parte de seus superiores:

Blogs são ferramentas pessoais, acessíveis, de baixo custo, sem intermediários, apoiadas em uma mídia instantânea e de alcance global. Entende agora porque temos tanto poder? E se hoje a informação é o poder, nunca ele esteve tão próximo de cada um de nós, livre e democraticamente. Não vamos, agora, abrir mão disso. Continuemos nesse tom. E se injustiças forem cometidas, aumentemos o tom!

A diária de um policial no Rio de Janeiro, $17, se equipara a de faxineiras. Foto de Thiago Velloso

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