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Brasil: Dia da consciência negra e o debate sobre racismo

Categorias: América Latina, Brasil, Etnia e Raça, História

De 1550 a 1888, pelo menos 3 milhões de africanos foram brutalmente enviados ao Brasil pelos mercadores de escravos, o que significa quase metade de todos os escravos levados à América do Sul. A maioria deles veio de Angola e Moçambique, que eram então colônias portuguesas na África, e foi submetida ao trabalho escravo nas plantações de cana-de-açúcar no nordeste.

Durante os anos da escravatura, milhares conseguiram escapar montando colônias livre conhecidas como quilombos [1]. O mais famoso de todos foi o Quilombo dos Palmares [2], em Alagoas, liderado por um escravo fugitivo conhecido como Zumbi [3], que veio a se tornar símbolo de resistência por defender o povoado contra as forças coloniais. Zumbi foi assassinado em 1695 e no aniversário de sua morte, 20 de novembro, o país renova sua permanente luta contra a discriminação.

(Foto de Iberê Thenório [4])

Blogueiros refletem sobre exclusão social, racismo e orgulho

A influência cultural da África continua forte no Brasil, um país onde os descendentes de africanos foram quase metade da população de 180 milhões de habitantes. Apesar disso, a discriminação econômica, social e de outras formas continua sendo a principal herança da migração em massa forçada da escravatura. De acordo com o último censo, no ano 2000, brasileiros de descendência africana formam 63% do setor mais pobre da sociedade, embora apenas 5% deles se declarem como ‘de origem negra’. Roice, Leandro e Milena, da escola de segundo grau estadual Jair Toledo Xavier, analisam os números [5] e refletem sobre as causas da discriminação:

A lei proíbe o racismo, mas mantém estruturas sociais e econômicas que o alimentam. Pode evitar que um viole o direito do outro, mas não tem como levar brancos e negros a se amarem e menos ainda como ajudar cada pessoa a se sentir bem em sua pele e em sua identidade cultural. No Brasil, os dados oficiais mostram que as desigualdades sociais são mais profundas à medida que as pessoas pobres não só são empobrecidas, mas são negras.

(Foto de Iberê Thenório [4])

Será que a lei funciona de verdade como deveria? Aldo Cerqueira Santos [6] publica uma coleção de depoimentos de pessoas que foram vítimas de discriminação e deixa algumas perguntas para reflexão. A última delas é:

Estes depoimentos aconteceram há dez anos. Por que até hoje existe preconceito racial.

E será que existe, na verdade, racismo em um país tão etnicamente misto como o Brasil? Esse é ainda um assunto muito debatido e altamente polêmico. Edu junta mais de 50 comentários em três postagens sobre o assunto. Em uma delas, ele escreve [7]:

O único tipo de preconceito que existe é o preconceito SOCIAL, relacionado à condição financeira e os símbolos de status ostentados pelo indivíduo. Neste país, não se olha cor antes de se julgar uma pessoa – se olha o que ela tem no bolso. No pulso. O que ela veste. Um negro rico é mais respeitado e bem tratado que um branco pobre – como se fosse uma pessoa melhor apenas por ter grana.

Zélio Luz [8], que relata ainda ser vítima de racismo mesmo tendo se estabelecido como engenheiro, está entre os que discordam nos comentários dessa posição, convidando o autor da postagem a experimentar ser negro por um dia [9] e listando algumas das situações pelas quais ele já passou em um Brasil racista:

Muitos como o dono do texto, dizem que temos complexo de perseguição… imaginemos que você seja negro, e que entre em um desses cursinhos preparatórios, depois de trabalhar o dia inteiro, para pagar é claro o tal cursinho. Vai ao banheiro e se depara com a seguinte mensagem: “SAI FORA PRETO AQUI NÃO É SEU LUGAR” o que você faria? Imagine-se caminhando em um bairro nobre, vestido “arrumadinho” indo para o trabalho, alguém o vê se aproximar e percebendo sua negritude, atravessa para o outro lado da calçada segurando sua bolsa desesperadamente, o que você faria? Imagine-se agora em uma balada na vila olimpia, arrumadinho novamente, alguém lhe entrega as chaves do carro e lhe pede para que guarde no estacionamento, o que você faria?

(Foto de Iberê Thenório [4])

Um dos assuntos destacados no debate acima foi o sistema de distribuição de vagas, aprovado em maio de 2004, uma medida legal que permitiu que universidades federais adotassem um sistema de cotas, a serem distribuídas de acordo com a cor da pele e classe social para aumentar o acesso de descendentes de africanos à educação superior. Isso é chamado de ‘racismo soft’ e é a pior forma de discriminação, de acordo com Reality is out there [10]:

Falo daqueles que acham que, sim, os negros são inferiores e precisam de um tratamento diferenciado por parte dos brancos privilegiados senão nunca chegarão a ser nada na vida. Aqueles que não acreditam que, dando-lhe consições iguais, um negro é capaz de disputar uma vaga de trabalho em igualdade de condições ou até mesmo levar vantagem sobre um branco.

Para dizer a verdade, no Brasil, o termo ‘racismo’ é usado na maioria das vezes em relação à discriminação contra as pessoas de acordo com a cor da pele delas. Sérgio Mendes [11] lembra a seus leitores que a palavra não deveria ter apenas essa conotação:

Já que tanto se batem pela questão do racismo contra os negros, poderiam, sensatamente, perceber que o inverso também o é. A palavra racismo não tem um componente “negro” no seu significado. Racismo é o preconceito que determinada raça ou etnia tem contra outra, independentemente se são brancos contra negros, negros contra brancos, portugueses contra espanhóis, paulistas contra nordestinos ou sérvios contra croatas: é racismo da mesma maneira, independente de qual parte parta.

(Foto de Iberê Thenório [4])

Eduardo Peret vai além, refletindo sobre todas as formas de discriminação, seja contra homossexuais, mulheres ou raças, concluindo [12]:

Então, vamos todos nos educar para a verdadeira perfeição, alcançando as virtudes da tolerância e da aceitação mútua. Aí, sim, as paradas, os dias internacionais e as comemorações de consciência e de orgulho serão desnecessários. Porque todos nós seremos verdadeiramente iguais, tal como quando nascemos.

(Foto de Iberê Thenório [4])

E Jaqueline Lira, professora e blogueira, encerra o debate se orgulhando de sua descendência [13] [pt]:

Tenho orgulho de ser negro. Não sou marrom, nem furta cor, nem camaleão. Sou negra.

Valeu Zumbi [14] é um novo blogue lançado para divulgar informações sobre o Dia da Consciência Negra em todo o Brasil.

Todas as imagens que ilustram essa matéria foram gentilmente cedidas por Iberê Thenório [15]. Veja todas as fotos do Dia da Consciência Negra ano passado na Avenida Paulista, São Paulo [16].

 

(texto original de Paula Góes [17])

 

O artigo acima é uma tradução de um artigo original publicado no Global Voices Online [18]. Esta tradução foi feita por um dos voluntários da equipe de tradução do Global Voices em Português [19], com o objetivo de divulgar diferentes vozes, diferentes pontos de vista [20]. Se você quiser ser um voluntário traduzindo textos para o GV em Português, clique aqui [19]. Se quiser participar traduzindo textos para outras línguas, clique aqui [21].