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Artifícios e controvérsia enquanto a mídia brasileira cobre a violência urbana

 

No Brasil, na semana passada, foi difícil encontrar blogues que não falassem sobre o debate acerca das causas da violência urbana. Tudo começou na internet, quando as pessoas “lançaram” uma cópia vazada do filme ‘Tropa de Elite’. Até agora, a polêmica tem repercutido e se transformado em um complexo coro de vozes distintas, se expressando através de diversos veículos – divulgado, comentado e amplificado em tempo real nas conversas da blogosfera brasileira.

Essa rodada de discussões foi despertada por um artigo publicado pela Folha de São Paulo por Luciano Huck, apresentador de TV, relatando a agonia de ter tido o seu Rolex roubado enquanto uma arma apontava para sua cabeça. A estrela deve estar arrependida de iniciar uma grande controvérsia ao evocar o nome do ‘Capitão Nascimento’ – o policial torturador protagonista do Tropa de Elite – como a solução para a violência nas ruas brasileiras.

Talvez como um exemplo das novas estratégias sendo desenvolvidas pelos jornais para competir por leitores em novos ambientes digitalmente conectados, a Folha convidou o rapista e blogueiro Ferrez – uma voz ativa do Capão Redondo, uma das mais violentas comunidades de São Paulo – a escrever um tipo de resposta ao artigo de Huck para publicação na mesma seção, “Tendências/ Debates”.

A resposta de Ferrez assinalou que Huck e os assaltantes saíram quites do encontro, já que o cara rico manteve sua vida, enquanto os rapazes não privilegiados ficaram com o Rolex. Até onde podemos dizer, a estratégia da Folha funcionou e blogueiros transformaram o choque Huck X Ferrez no episódio da semana para a mídia brasileira, embora nem todos estejam felizes com o debate resultante.

Fiz o texto, a pedido do coordenador de artigos Uirá Machado, que trabalha na Folha. Ele me mandou a carta de Luciano Huck, sobre seu assalto no Jardins. Coloquei o nome de: Pensamentos de um “correria”, , e com minha mente literária e ingênua fiz uma ficção onde o ponto de vista eram dos ladrões. Quando enviei o artigo para ele, que foi escrito em 5 horas, me mostrei preocupado por ser quase um conto, e podia fugir do estilo do espaço Tendências/Debates, mas o texto foi publicado.

Sobre o texto na Folha de São PauloFerrez

Está estabelecida a luta de classes. Bastou o apresentador branco e rico escrever um texto-desabafo para que centenas se revoltassem contra a cara de pau do sujeito que tem tudo na vida e ainda a audácia de reclamar apenas porque, no sinal, levaram seu estimado relógio, presente da diva que é também sua mulher, e que vale uma kitinete. Como polêmica é bom, a solução midiática (porque outra não há) foi chamar o Ferrez para tecer o contra-ponto sob a ótica do ladrão. Aí é que o bicho pegou definitivamente. Onde já se viu fazer a apologia do crime. Lugar de ladrão é no xilindró – ou, como prefeririam muitos, a sete palmos. Tudo muito explicável e legítimo, mas também raso e hipócrita. Huck, Ferrez, você, eu, o Renan e o LulaBlônicas

À medida que cresciam as estatísticas de visitantes e o número de postagens sobre o assunto, a Folha decidiu chamar outro blogueiro para publicar na mesma seção “Tendências/Debates”, dessa vez um bem conhecido vigilante da direita. Ele já tinha declarado em seu blogue que não haveria debate com Ferrez, que ele descreveu como ‘alguém que apóia a morte como uma ferramenta de justiça social’. Mas com essa declaração ele acabou apenas jogando mais lenha em um bate-boca já inflamado.

O artigo do tal é irrespondível. Vou eu lhe dizer que o crime não compensa? Ele tem motivos para acreditar que sim. Lênin mandaria que lhe passassem fogo -não sem antes lhe expropriar o relógio. Apenas sugiro ao jornal que corrija seu pé biográfico: ele é um empresário; o bairro do Capão Redondo é seu produto, e a voz dos marginalizados, o fetiche de sua mercadoria. Ir além na contestação de seu libelo criminoso seria reconhecê-lo como voz aceitável na pluralidade do jornal. Eu não reconheço.

Reinaldo Azevedo in Rapper?! ArghBlog do Orlando Tambosi

A interação da Folha com a blogosfera chamou a atenção e provocou links de trackback suficientes para caracterizar a iniciativa do jornal como bem-sucedida, mas alguns blogueiros e mesmo veículos de comunicação tradicionais têm criticado a jogada.

Luciano Huck foi para a capa da última edição de Época. Antes esteve nas Páginas Amarelas de Veja, duas vezes na primeira página da Folha e foi assunto de quase sessenta mil ocorrências na Internet. Por que a celeuma? O apresentador achou que deveria protestar contra uma violência da qual foi vítima e, como é uma celebridade, teve tratamento VIP. Então um escritor da periferia achou que deveria defender o ponto de vista dos marginais, botou a boca no trombone e também foi para a primeira página. À primeira vista tudo isto parece um debate democrático, troca de idéias dentro de uma sociedade pluralista. Não é. A imprensa fixou-se nos aspectos mais sensacionalistas, como a chamada na capa da Época – Ele Merecia ser Roubado? – o público leitor foi na onda e manteve a mesma entonação. Dai para o linchamento e o canibalismo foi um passo. Quando se simplifica o debate como agora acontece, é inevitável que a resposta coletiva seja ainda mais simplista e ainda mais grosseira. A brutalidade que hoje se nota em alguns blogs e nas seções de cartas dos leitores não acontece por acaso. Alguém fez vibrar um diapasão, a multidão percebeu o tom e procurou a mesma afinação. É evidente que Luciano Huck não merecia ser roubado, ninguém merece ser roubado, nem mesmo ladrões. Mas um assunto sério como este não merece colocações tão ingênuas e tão desatinadas.

Alberto Dines em Sociedade do Espetáculo (de mau gosto)Flanar

Luciano Huck - Época

Ele merece ser roubado?

 

O que o debate sobre o assalto a Luciano Huck mostra sobre o espírito brasileiro

Nessa era de propagação viral, participações de massa e informações caóticas em que tanto anjos como demônios parecem voar em nossas caras, a paisagem do discurso popular se expande rapidamente em caminhos que são freqüentemente confusos e que podem desafiar as mais arraigadas convenções sobre o que é verdade e o que é armação, e quais são os limites legítimos do debate público. Virão iniciativas (e manipulações) por parte tanto da mídia tradicional quanto da mídia alternativa, procurando chegar ao palco principal nesse novo ambiente. Enquanto o debate se alastra, podemos apenas tirar conclusões óbvias – as novas culturas digitais da Era da Informação estão mudando tanto o jogo da mídia como o de seus jogadores em todas as esferas.

(texto original de Jose Murilo Junior)

 

 

O artigo acima é uma tradução de um artigo original publicado no Global Voices Online. Esta tradução foi feita por um dos voluntários da equipe de tradução do Global Voices em Português, com o objetivo de divulgar diferentes vozes, diferentes pontos de vista. Se você quiser ser um voluntário traduzindo textos para o GV em Português, clique aqui. Se quiser participar traduzindo textos para outras línguas, clique aqui.

1 comentário

  • José Roberto

    Gostaria de anexar este post copiado de outro artigo publicado no Global Voices.

    Quinta-feira, 18 setembro de 2008
    71% dos carros blindados no país estão em SP

    A procura por carros blindados no Brasil chegou até o Supremo Tribunal Federal. Sempre que vai a cidades grandes, como São Paulo e Rio, o ministro Gilmar Mendes anda apenas de carro blindado. No sistema do STF, há registros de locações de automóveis blindados de luxo por valores que variam de R$ 775 a R$ 1.550. E para quem quer deixar o carro à prova de balas, é bom estar preparado para gastar. Uma blindagem custa em média a partir de R$ 58,5 mil.

    Para circular com um carro blindado, o motorista precisa apresentar uma série de documentos pessoais, incluindo certidão negativa de antecendentes criminais e vai receber uma autorização do Exército para circular com carro blindado. O Exército emite este certificado desde 2003 e já tem mais de 7 mil veículos blindados cadastrados. São Paulo, com 71%, e Rio de Janeiro, com 14%, são os estados que concentram o maior número de carros blindados no Brasil, de acordo com uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Blindagem (Abrablin).

    Ainda segundo a pesquisa, 71% dos proprietários que usam carros blindados são homens entre 25 e 29 anos. Dos blindados em geral, 63% são para executivos ou empresários, 12% para políticos, 8% para artistas e 5% para juízes.

    Os carros mais blindados do país, de acordo com a associação, são os sedãs Toyota Corolla, Chevrolet Vectra e Volkswagen Passat e a picape Toyota Hilux. Alguns carros podem vir blindados de fábrica, como o VW Passat Protect, o BMW 325 Security, as Mercedes Classes C e E, e o Mistubishi Pajero TR4.

    Blindados populares

    Mas também tem aumentado a procura por veículos populares blindados. Segundo a associação, 20% dos carros blindados em 2007 são populares. A maior preocupação dos proprietários é a perda de potência de um carro mais leve com o peso extra ganho com a blindagem.

    “Não é recomendável blindar um veículo de potência inferior a 90 cavalos. Uma blindagem pesa em média 200 kg, o que o peso de três homens adultos supera tranqüilamente”, afirma com o engenheiro Rogério Garrubbo, diretor da Concept Blindagens. Segundo ele, as blindagens mais leves aplicadas a sedãs médios pesam em torno de 170 kg. O menor veículo que se pode blindar hoje no Brasil é uma picape pequena, como a Fiat Strada. Nesse caso, o peso ficará em cerca de 110 kg.

    Um carro blindado recebe vidros de pocarbonato e proteção de mantas de aramida – com seis camadas de fibra sintética e cinco vezes mais resistente que o aço – na carroceria. Todo o processo de blindagem leva de 20 a 30 dias. “É recomendável que o proprietário converse com o engenheiro responsável e verifique como o processo está sendo feito”, destaca Garrubbo.

    O nível de blindagem de um carro é dividido em seis categorias de acordo com a norma brasileira, que segue os padrões americanos. A categoria mais procurada é a III-A, que suporta até tiros de uma Magnun 44 ou uma pistola 9mm. “É o nível que suporta em geral todos os disparos efetuados por armas de mão”, afirma o engenheiro. (“Dificilmente será necessário mais do que isso em uma situação normal de violência urbana.”)

    Os carros só podem ser blindados em categorias superiores a esta com uma autorização especial do Exército. Outra empresa brasileira, a HPC Blindados, fabrica carros para circular no Iraque. Neste caso, o peso extra é bem superior. Os carros blindados para andar no Iraque chegam a receber até três toneladas e meia de aço e o preço não sai por menos de US$ 500 mil. “São níveis que superam todos os tipos de armamentos, como AK 47, M16, M80 e, de quebra, ainda podem soltar fogo, granada, ter metralhadora no teto, etc”, destaca o empresário Maurício Junot, diretor da empresa.

    http://anunciautos.com.br/noticia/sao-paulo/71-dos-carros-blindados-no-pais-estao-em-sp-308/

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