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“Tropa de Elite” provoca polícia, piratas e antenados

“Tropa de Elite”, um filme bem badalado sobre as forças especiais do Rio está sendo lançado oficialmente hoje no Rio e em São Paulo, e tem estréia nacional marcada para 12 de outubro. O fato mais peculiar sobre esse lançamento é a expectativa de que uma multidão de 3.5 milhões de pessoas tenham assisitido ao filme antes da pré-estréia. A cópia [não autorizada] do filme pode ser vista ou baixada em muitos sites diferentes, e especula-se que mais que um milhão de cópias do DVD já foram vendidas nas ruas brasileiras durante as semanas passadas.

Elogiado como sendo o “Cidade de Deus 2″, mas apresentando uma narrativa com o ponto de vista do policial, o filme está provocando debates tempestuosos em todo o país sobre a violência nas grandes cidades. Também rolam discussões interessantes sobre a moralidade do uso abundante de cópias não autorizadas de um filme ainda não lançado que tenha vazado na internet. Certamente, esse caso fez com que brasileiros mergulhassem fundo no significado de pirataria na era digital, o que por sua vez pode desencadear um momento determinante na indústria áudio-visual. Os blogueiros estão em cima do assunto.

To sum it up, the movie is about police corruption in Rio and how the police, at the different levels (civil, military, etc) managed to extort just about everyone and everything in Rio. But it focuses on the BOPE, the “Elite Squad,” that is the Brazilian version of the SWAT. They are the ones who invade favelas, especially after the regular police botch up invasions or extortion visits. It focuses on the captain, who slowly unravels, and the training and selection of new BOPE members as they ascend from the ranks of the military and civil police… One of the main characters is a policeman and a law student, who tries to show these rich kids that they are the ones helping to cause the violence by buying drugs that come from the favelas, challenging the concept that the wealthy here are not to blame for the city's violence, and that they are untouchable.
Friday FunAdventures of a Gringa in Rio

Resumindo, o filme é sobre como a corrupção policial no Rio, em diferentes níveis (civil, militar, etc) conseguem extorquir a tudo e a todos. Mas o foco é no BOPE, a “Tropa de Elite”, que seria a versão brasileira da SWAT. Eles também são os que invadem favelas, especialmente após uma batida policial regular ou visitas de extorsão. O foco é no capitão, que aos poucos se revela, e o treinamento e seleção dos novos membros do BOPE enquanto eles são promovidos entre os quadros das polícias militar e civil… Um dos personagens principais é um policial e estudante de direito, que tenta mostrar aos garotos ricos que eles estão contribuindo com a violência quando compram drogas nas favelas, desafiando a idéia de que os ricos não devem ser culpados pela violência da cidade e que eles são intocáveis.
Friday FunAdventures of a Gringa in Rio

Tropa de Elite
Capitão Nascimento

O filme conta uma história no microcosmo e sua mensagem é o ponto de vista do policial na rua. É um ponto de vista bem-vindo pois raramente ele tem a chance de se apresentar. Para o policial que arrisca sua vida em operações arriscadas para garantir a execução da lei, é o garotão subindo o morro quem mantém o ciclo vicioso. Só que não é. Um paralelo: na era digital, evitar que um filme destes se espalhe qual vírus, na Internet, é impossível. Pode ser ilegal, mas leis não existem no vácuo, elas regem um ambiente dinâmico que é o da cultura humana. É inerente à existência humana que informação considerada de valor seja espalhada. Se o meio digital facilita ao máximo esta transferência de informação, ela acontecerá. No fim, por ser inútil empregá-la, a lei terminará obsoleta e novos modelos de negócio surgirão para sustentar a produção cultural. Como, aliás, sempre aconteceu. Da mesma forma, é inerente à condição de ser humano a busca pela transcendência, pela alteração de percepção, pela abertura de sentidos que a intoxicação possibilita. Pode ser o barato do atleta que, no limite do seu esforço, modifica a bioquímica cerebral, produzindo foco extremo numa única atividade e uma sensação nada vaga de prazer. (Quem corre a conhece.) Pode ser o chope, a leve tontura, o livrar-se de inibições. Ou a maconha. Ou a cocaína. LSD. Opiácios. Não é porque a lei proíbe o consumo de algumas substâncias que alteram a percepção que ela será eficaz. Tais substâncias continuarão a ser consumidas. O que realmente cria a violência é a lei.
Tropa de Elite: pirataria, e quem financia o tráficoPedro Dória

Uma coisa é certa: ‘Tropa de Elite’, com direção do brasileiro Jose Padilha, se transformou no filme ainda não lançado mais visto e debatido de todos os tempos. De um lado vemos os agentes linha dura do BOPE se transformando nos heróis em uma sociedade assustada e paranóica, e do outro lado está um esforço policial em bloquear a exibição do filme. Na verdade, Padilha tentou mostrar que alguma coisa está errada com o sistema, onde oficiais mal remunerados “devem escolher entre se tornar corrupto, negligente ou a caminho da guerra”. Ainda assim, algumas pessoas estão acusando o filme de ser facista.

Há um simplismo generalizado que assola o entendimento da violência e do narcotráfico. O Estado culpa o usuário de drogas, discurso que os policiais de Tropa de Elite não se cansam de repetir. A população, acuada, não quer nada além de tranqüilidade, nem que ela seja alcançada à base de bala. E embora o filme de José Padilha apresente em algum momento a complexidade da questão, ela não é aprofundada. Aliás, o único policial do longa-metragem que tenta fazer faculdade e é o único dali que problematiza essas relações da violência, é solenimente recriminado pelo narrador, ou seja, pela voz do filme. Tropa de EliteBlog da Moviola

O sucesso de “Tropa de Elite” registra o conservadorismo crescente da população nacional, na esteira da fragilização do mundo do trabalho e mergulho geral das lideranças populares tradicionais na corrupção. É enorme vitória dos poderosos que policiais fardados de preto encarnem a solução da insegurança nacional, distribuindo a morte entre os pobres, sob a bandeira da caveira sorridente. “Tropa de elite, osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você!”. E, se não te cuidares, meu chapa, vai te pegar, mesmo!
Matando pelo bem do Brasil, por Mário Maestri in O herói de Tropa de Elite e o Che Guevara da VejaPsico-História: Ficção Científica e Sociologia Crítica e Militante

Muitos comentaristas citaram uma característica especial do filme que é estimular discussões sobre problemas difíceis, como o nível de violência em favelas nas grandes cidades, se a busca de soluções para o tráfico de drogas. Uma entrevista com o diretor José Padilha explora o seu impulso para gerar debate com seus filmes, como aconteceu com seu aclamado documentário, “Bus 174” [en].

Em que pesem as críticas pertinentes, “Tropa de Elite” é uma obra interessante porque não tem medo de lidar com um tema cabeludo e estimular uma discussão necessária: até que ponto se justificam a coação e a tortura na repressão ao crime organizado. Em matéria de cinema brasileiro, isto é uma ruptura radical com a geração dos anos 60 que adotou a ótica do marginal como resposta ao ideário do poder vigente da época. A verdade é que os tempos do “seja bandido, seja herói” já não se justificam mais. Marginal virou uma expressão pejorativa, antítese de transgressão.
O efeito Tropa de Elite 1Reduto do Comodoro

“Fiz o “Ônibus 174″ para entender o ponto de vista do seqüestrador, e me acusaram de ser um radical de esquerda. Agora fiz o “Tropa de Elite” para entender o ponto de vista de um policial e me acusam de ser radical de direita. Mas em nenhum dos dois casos tentei justificar ou defender as atitudes desses protagonistas, apenas entendê-las. Meu ponto de vista não é igual ao ponto de vista do capitão Nascimento. Pessoalmente, sou a favor da descriminalização das drogas. Ela cortaria a oposição entre o usuário e o policial. Mas eu entendo a visão de um policial contra o usuário, porque ela se apóia em um fato: quem consome drogas está financiando o crime. E um fato não é de direita ou de esquerda. Os policiais são mal remunerados, mal treinados e têm que trocar tiros com pessoas com mais armas. É compreensível ele ser contra alguém que reclama da segurança pública, mas financia o tráfico.”
Entrevista com o diretor de Tropa de Elite, José PadilhaMateus Lopes

Não se pode discutir que a grande novidade trazida pelo ‘Tropa de Elite’ de José Padilha é o seu raro esquema de ‘distribuição’. Enquanto o burburinho sobre o filme continuou aumentando nas últimas semanas, a equipe de produção do filme teve que alternar de declarações desesperadas sobre a versão pirata e negações ardentes das acusações de que ela deixou o filme vazar na internet de propósito, como uma estratégia de marketing. Muitos estarão interessados em acompanhar o lançamento do filme nas salas de cinema, e blogueiros já estão comentando as novas possibilidades trazidas pelo “vazamento do ano”.

Existe o argumento da indústria cinematográfica que a pirataria está destruíndo-a. É um argumento interessante. O mesmo argumento foi usado pela indústria fonográfica meses depois da popularização dos mp3. E põe uns 7 anos nisso. Pensando na indústria fonográfica, não vimos a destruição da indústria, mas sim uma quebra de paradigmas, ou seja, vimos uma reformulação do modelo de negócios dos envolvidos com o comércio de música. Então, se essa troca de arquivos via web favorece a divulgação das mesmas, isso também atinge os filmes. É aí que entra a grande prova de fogo de “Tropa de Elite”. Se o argumento que a indústria dita estiver correto, o filme será um fracasso total de bilheterias, e vendas de DVDs. Mas se acontecer o contrário? Se o filme atrair um público acima do esperado? Se isso acontecer, vai provar que este argumento de que a troca de arquivos via web está aí para destruir indústrias é fajuto. De que a pirataria, desde que quem utilizada pela indústria, pode se tornar uma poderosa arma de marketing.
A prova de fogo de ‘Tropa de Elite’Tecnologia e Cinema

Deixo um recado para a Indústria: Caiam na real, procurem novas maneiras de ganhar dinheiro. Parem de perder tempo processando as pessoas e esperando ações policiais no terceiro mundo e se concentrem em criar diferenciais na experiência do usuário. O capitalismo é o sistema para os criativos e dinâmicos – os lentos que pereçam.
A Tropa de Elite e a piratariaResistindo

Por fim, acho que Tropa de Elite merece uma força. Apesar de já ter visto a versão malandra, faço questão de pagar para ver o melhor filme brasileiro do ano. Mas, em todo caso, estão aí os links para download…
Tropa de EliteO último lampejo

I'm including some videos here regarding my long post about Elite Squad and the war in Rio. They are short, they are REAL footage and they explain the favela wars and about BOPE, the Brazilian SWAT and Rio's war. And, they have English subtitles!
The real BOPE (SWAT)Adventures of a Gringa in Rio

Estou incluindo alguns vídeos aqui, relacionados à minha longa postagem sobre Tropa de Elite e a guerra no Rio. Tratam-se de cenas curtas e REAIS que explicam as guerras nas favela e sobre o BOPE, a SWAT brasileira, e a guerra no Rio. E todos com legendas em inglês!
The real BOPE (SWAT)Adventures of a Gringa in Rio

[Nota da tradução: esse texto foi originalmente publicado em 5 de outubro]

(Texto original de Jose Murilo Junior)

 

O artigo acima é uma tradução de um artigo original publicado no Global Voices Online. Esta tradução foi feita por um dos voluntários da equipe de tradução do Global Voices em Português, com o objetivo de divulgar diferentes vozes, diferentes pontos de vista. Se você quiser ser um voluntário traduzindo textos para o GV em Português, clique aqui. Se quiser participar traduzindo textos para outras línguas, clique aqui.

3 comentários

  • Carlos

    A realidade dói, Foi o que mostrou tropa de elite nas telas por todo brasil. Vivemos uma realidade social totalmente adversa a justiça, Ma distribuição de renda, inverção de valores e de conceito moral, ou seja vivemos em uma sociedade doente diante do consumismo que cega e corrompe almas.
    Poderemos mudar sim todo este processo degradante, Mais tenho certeza que tal mudança só ira ocorrer quando todos aqueles que emanam o poder criem vergonha na cara diante de uma existência tão curta,e passem a ter uma visão real das coisas ou seja, Se existe divisão social existe divisão de espaço e sendo assim se criam conflitos,pois um garoto de vida social digna jamais podera passar de forma segura por um local onde vivem os desafortunados e esquecidos pelo sistema pois estara correndo o risco de se confrontar com alguém que não assimile sua revolta de forma construtiva vindo a cometer um delito alimento de sua revolta diante de um inocente; Tenho o dito.

  • Fabiano Machado

    Eu vi Nazistas no filme Tropa de Elite.

    Ele veio apoiado por uma medida do Governo Lula de um PAC (pacote de aceleração do crescimento) da segurança pública.

    Infelizmente foi aplaudido de pé esse filme na sua pré estreia que culminou junto ao lançamento do pacote…

    O filme recebeu dinheiro do Governo e foi realmente encomendado. Serviria para mobilizar a população a favor destas chacinas. O Policial que está lá no BOPE não aprova isso, ele gostaria de viver num ambiente muito mais tranquilo, fazem porque não algo melhor para fazerem da vida…

    Uma empresa chamada Conspiração filmes se não me engano fez o filme. O Diretor tem idéias e vende um livro de que o homem não foi a Lua. Realmente fazem parte de um conglomerado que trabalha a serviço do Governo (pior agora com o Luis Inacio Lula da Silva) que tentam colocar “idéias” na cabeça do povo.

    Para concluir, não dúvido que a primeira fila que levantou para aplaudir a estréia sejam da Policia Federal (que tem “planos brilhantes”) e mais alguns Petitas (partido PT, do Presidente) para mostrar total aprovação e repercurtir idéias na sociedade.

    LAMENTÁVEL…

  • […] parafraseando o ex-oficial do BOPE (grupo especializado da polícia carioca) e roteirista do filme Tropa de Elite, Rodrigo Pimentel: Com diz o próprio Pimentel, isto aqui é uma guerra particular, a polícia mata […]

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