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Marrocos: Censura é manchete mais uma vez

Categorias: Marrocos, Arte e Cultura, Governança, Liberdade de Expressão, Mídia e Jornalismo, Política, Primeira Mão

Marrocos circulou nas manchetes com uma certa frequência no ano passado por questões relacionadas à liberdade de expressão. Em dezembro, ocorreu a proibição da revista Nichane [1], a única do Marrocos em darija [2] (dialeto marroquino), Aboubakr Jamai [3] foi praticamente forçado a deixar o país para salvar sua revista, Le Journal, de uma multa bem gorda, o mês de maio viu o Marrocos sendo incluído na lista do Backsliders [4], do Comitê de Proteção ao Jornalista, de países onde a liberdade de expressão tem se deteriorado mais em anos recentes, e agora, por cima de tudo isso, um novo caso surge.

Eatbees [5] [En] escreveu uma postagem extremamente abrangente, detalhando os mais recentes eventos que se sucederam após o discurso à nação feito Rei Mohammed VI, feito no dia 30 de julho, Throne Day [6] [En] (Dia do Trono):

“Following the speech, journalist Ahmed Reda Benchemsi wrote a provocative response that was printed in Nichane. The offending issue was confiscated by the authorities as soon as it reached the stands, but not before a few people got hold of copies. Nichane’s French-language sister publication TelQuel was also seized, before it had even left the presses. No one seems to know whether TelQuel contained a French translation of the same piece (I think this is likely) or something just as offensive to the sensitivities of the Moroccan state.”

“Após o discurso, o jornalista Ahmed Reda Benchemsi escreveu uma resposta provocativa que foi impressa em Nichane. A edição considerada ofensiva foi confiscada pelas autoridades assim que chegou as bancas, mas antes disso algumas pessoas conseguiram colocar as mãos na cópia. A publicação-irmã da Nichane em língua francesa, TelQuel também foi confiscada, antes ainda de ir ao prelo. Ninguém parece saber se TelQuel continha uma tradução em francês do mesmo texto (o que eu acho que seria possível) ou algo igualmente ofensivo a sensibilidade do estado marroquino”

A história, que também saiu na Reuters [7] [En], foi também comentada por Laila Lalami [8] em seu blogue:

“It’s really disheartening to have to write yet another post, about yet another problem in the Moroccan press, but it seems the wheels of censorship never stop.”

“É muito desalentador ter que escrever mais uma postagem, sobre mais um problema na imprensa marroquina, mas parece que as esteiras da censura nunca cessam”

O blogueiro do Francophone, Larbi [9] [Fr] também teve muito o que dizer sobre a situação:

“Entendons-nous, ces journaux , ces journalistes et ces personnalités sont dans leur droit de louer et bénir le Souverain. En démocratie il faut accepter les idées des autres . J’irais même jusqu’à exprimer l’idée que tout n’est pas faux dans ce florilège des éloges. Mais que fait-on dans le Maroc d’aujourd’hui quand on est pas convaincu par le discours du Souverain ou quand on est pas d’accord avec ses propos ? Soyons honnêtes: Il n’existe pas un seul dirigeant politique au Monde, pas un seul chef d’Etat pas un seul être humain qui requiert l’unanimité des avis favorables. Ça serait dans l’ordre du miracle et du surhumain! A fortiori quand il s’agit d’un Chef d’Etat on peut ne pas être d’accord avec ses discours. C’est ce qui fait la différence entre un régime autoritaire et un autre en transition…”

“Vamos deixar claro, essas publicações, esses jornalistas e essas personalidades estão dentro do direito deles de elogiar e venerar o Soberano. Em uma democracia, nós devemos aceitar as idéias dos outros. Eu até vou mais longe em dizer que nem tudo nessa chuva de elogios é falso. Mas o que alguém faria no Marrocos hoje se esse alguém não acreditasse no discurso do Soberano e não concorda com suas propostas? Vamos ser honestos. Não existe uma única liderança política, nem um chefe de estado, nem mesmo um ser humano que que receba críticas unanimamente favoráveis. Seria um super ser-humano milagroso. Quando se trata de um chefe de estado, é possível se discordar do discurso. É essa toda a diferença entre um estado autoritário e um em transição…”

Adel do Netdur’s Public Log [10], [En] que digitalizou e publicou o artigo considerado ofensivo, teve a dizer:

“King respect!? actually such as crap makes me respect me king less and more angry… here page scanned, small but still readable… enjoy it”

“Respeito ao rei? Na verdade, uma merda dessas me faz respeitar o rei ainda menos e me deixa com mais raiva… aqui está a página digitalizada, pequena, mas ainda pode ser lida… Divirtam-se”


Lastly, GHASBOUBA [11] [En] resumiu seu sentimento, dizendo:

“For Many moroccan this is a shame. What was in the magazines that deserves seizure. What did Nichane say. why Nichane? Well it is probably the only magazine of its kind that can be read and understood by many Moroccans. At least those who can read Arabic.. many city dwellers. From different social classes. Other Magazines in French, Classical Arabic , German, Spanish etc are foreign to the majority of Moroccans and “ we do not know how to read those”. They also are expensive. And you do not want to give half of your daily salary for a magazine.
Moroccans still remember the hot days of USFP, and the long glowing hot speeches of Fath Alla Oualalou criticizing the government and crossing the red lines. Now he is sitting in an air-conditioning big office with the other guys giving orders about and shutting down people. very disappointing to many of us who would like to see a Marrocos where issues of freedom of speech in the folds of the past.”

“Para muitos marroquinos, isso é uma vergonha. O que tinha de mais nessa revista para ela merecer confiscação? O que Nichane disse? Porque Nichane? Bom, é provavelmente a única revista do tipo que pode ser lida e entendida por muitos marroquinos. Pelo menos aqueles que podem ler arábico… muitos moradores das cidades. De diferentes classes sociais. As outras revistas em francês, árabe clássico, alemão, espanhol etc são estranhas para a maioria dos marroquinos, e “a gente não sabe como ler as mesmas”. Elas também são caras. E você não quer usar metade do seu salário do dia para comprar uma revista.
Os marroquinos ainda se lembram dos dias explosivos USFP (União Socialista das Forças Populares), e os longos e inflamados discursos de Fath Alla Oualalou criticando o governo e atravessando sinais vermelhos. Agora ele está sentado num grande escritório com ar-condicionado com os outros caras, dando ordens para trancafiar as pessoas. Muito decepcionante para muitos de nós que gostariam de ver um Marrocos onde questões de liberdade de expressão seriam algo dos livros de história”.

(texto original de Jillian York [12])

 

 

O artigo acima é uma tradução de um artigo original publicado no Global Voices Online [13]. Esta tradução foi feita por um dos voluntários da equipe de tradução do Global Voices em Português [14], com o objetivo de divulgar diferentes vozes, diferentes pontos de vista [15]. Se você quiser ser um voluntário traduzindo textos para o GV em Português, clique aqui [14]. Se quiser participar traduzindo textos para outras línguas, clique aqui [16].