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Arabeyes: Atentados do Reino Unido

Categorias: Artigo popular, Iraque, Jordânia, Reino Unido, Desastre, Ideias, Lei, Mídia Cidadã, Política, Primeira Mão, Religião

Leia o que Hareega, médico jordaniano residente nos Estados Unidos, escreveu [1][EN] após as notícias sobre o envolvimento de médicos muçulmanos de origem árabe nos atentados do Reino Unido [2] [EN].

Hareega também traça um paralelo entre ele e o médico jordaniano Mohammed Asha [3] [EN], que está sendo interrogado juntamente com a mulher sobre seu papel nos atentados a bomba frustrados de Londres e Glasgow.

“Mohammad Asha ….. University of Jordan- Faculty of Medicine (1998-2004)
Yours Sincerely ……….. University of Jordan- Faculty of Medicine (1996-2002)

In case you don’t know, the faculty of medicine is a really small one, and between the 4th and 6th year students spend all of their time at the University Hospital and less often at other hospitals like Al-Basheer, so many students in these years know each other’s faces or names. Although I could not remember this guy despite the good ten minutes I spent staring at my monitor trying to remember him, I’m certain that I ran across him in some hallway or perhaps tried to bypass him in the long standing line at the hospital’s cafeteria.

The reason I cannot remember him specifically is that his face looks very familiar. It’s the commonest face you encounter in any faculty in Jordan. His beard (according to previous pictures) was not as thick, and that makes him look like 30-40% of male students at the JU.”

“Mohammad Asha … Universidade da Jordânia- Faculdade de Medicina (1998-2004)
Hareega ……………….. Universidade da Jordânia- Faculdade de Medicina (1996-2002)

Caso não saibam, a faculdade de medicina é realmente pequena, e entre o 4º e o 6º anos os alunos passam o tempo todo no hospital da universidade e com menos freqüência vão a outros hospitais como Al-Basheer, portanto muitos alunos desses anos se conhecem de vista ou pelo nome. Embora não tenha conseguido me lembrar de Asha, apesar dos bons dez minutos que passei na frente do meu monitor de vídeo tentando me lembrar dele, estou certo de ter cruzado com ele em algum corredor ou talvez tenha tentado lhe passar na longa fila da cantina do hospital.

O motivo pelo qual não consigo me lembrar dele em particular é que seu rosto é muito comum. É o rosto mais comum que se encontra em qualquer faculdade da Jordânia. Sua barba (de acordo com fotos anteriores) não era tão grossa, e isso faz com que se pareça com 30-40% dos rapazes que estudam na Universidade da Jordânia.”

Hareega continua, dizendo que ele acredita que Asha possa ser inocente pelos seguintes motivos:

“First, he graduated from the Jubilee school. I’m familiar with this school since I was accepted there in 1994 but was discouraged from joining it by my parents because it was brand new and didn’t have a GCE program. However, the school was unique in the way it enlightened its students about other cultures. Its students not only scored well in subsequent years but also were able to study abroad and intermingle with people from other countries extremely well.

Another thing worth-mentioning: It’s not only that his father said in an emotional interview with a fox news reporter today that his accused son missed many Fridays prayers and was more willing to read Gray’s Anatomy than the Quran, but it’s because the Jordanian intelligence mentioned that he had clean records prior to leaving Jordan.

We all know it’s not easy easy to have a “clean record” in Jordanian intelligence. They know everything.

Things might have changed after he left to the UK, and we know how fanatic some Islamic movements are there, but their target is usually very young Muslim men who have many financial and/or social problems, and that doesn’t apply to Asha. The salaries they give to medical residents there are way better than those they give to residents in the US.

I went through the same life that this person went through for many years, and we had different students/doctors graduating from our class. Yes some were very religious , or even supported Hamas or Hizbullah but I can’t buy it that someone would be seriously involved in a militant group or planning an attack on civilians. Our past and present makes it almost impossible for anyone to think of something other than medicine.”

“Primeiro, ele se formou na Jubilee School [4] [EN]. Conheço essa escola desde que fui admitido nela em 1994, mas fui desencorajado pelos meus pais a freqüentá-la porque era muito nova e não tinha o programa GCE. Entretanto, a escola era única no modo como ensinava outras culturas; seus alunos não só tiravam notas altas nos anos seguintes, como também podiam estudar no exterior e relacionar-se extremamente bem com pessoas de outros países.

Outra coisa digna de nota: Não é só pelo fato de seu pai ter dito hoje numa entrevista emocional a um repórter da Fox News que seu filho acusado faltou a muitas orações da sexta-feira e preferia ler Gray’s Anatomy a ler o Alcorão, mas porque o serviço de inteligência jordaniano mencionou que Asha não tinha ficha criminal antes de sair da Jordânia.

Sabemos que não é fácil ter a “ficha limpa” junto ao serviço de inteligência jordaniano. Eles sabem de tudo.

As coisas podem ter mudado depois que ele foi para o Reino Unido, e sabemos como alguns movimentos islâmicos de lá são fanáticos, mas esses movimentos geralmente têm como alvo muçulmanos muito jovens com problemas financeiros e/ou sociais, o que não é o caso de Asha. O salário de um médico-residente no Reino Unido é bem mais alto do que o de um médico-residente nos Estados Unidos.

Tive o mesmo tipo de vida que essa pessoa teve por muitos anos, e diferentes alunos/médicos se formaram conosco. Sim, alguns eram muito religiosos, ou até mesmo apoiavam o Hamas ou o Hezbollah, mas não consigo me convencer de que algum deles pudesse se envolver seriamente com um grupo militante ou planejar um atentado contra civis. Nosso passado e nosso presente tornam quase impossível que pensemos em algo que não seja em medicina.”

Enquanto isso, a blogosfera jordaniana está fervilhando e
Natasha Tynes
, do Mental Mayhem, mostra o que alguns blogueiros estão dizendo neste post [5] [EN].

O blogueiro Firas pergunta [6] [EN] “O que deu errado”?

“The sad thing about this story is that Mohammad represents a true example of a hard working Jordanian. His father is a teacher, they reside in Hay Al Zuhoor . Yet he was a true achiever, always at the top of his class. He got 7 siblings, who 3 of them are doctors as well. His parents say he is not an extremist, he has never shown anything of that, he is not strict, and prays like any Muslim.

So what went wrong?Assuming the UK’s security forces are right about him.”

“O triste dessa história é que Mohammad é um exemplo real de um esforçado trabalhador jordaniano. Seu pai é professor, eles moram em Hay Al Zuhoor. Apesar disso ele era um verdadeiro realizador, era sempre o melhor da turma. Ele tem sete irmãos e irmãs, dos quais três também são médicos. Seus pais dizem que ele não é extremista, nunca demonstrou nada disso, não é rígido, e reza como qualquer muçulmano.

Então, o que deu errado? Supondo que as forças de segurança do Reino Unido estejam certas a respeito dele.”

Firas continua:

“If he is truly involved, there might be some explanation, and I’ve personally witnessed this:
What happens is that Arab students go to study abroad in countries where political and religious freedoms are granted for all, say countries like: US,UK,Canada and Australia. Now these students get to know other Muslim students usually Pakistanis who got some extremists among them, and that’s when they are fed with all this crap. And this is out of personal experience (a close friend would stop talking to you, because you are a Christian,the guy was transformed in 5 months).As in Pakistan extremist groups and parties are deeply rooted in that country, and for an Arab student who finds him/herself in an alien culture and lately a hostile culture to Islam (think of post 9/11,the Danish cartoons,the Pope’s lecture,etc) these guys would have some affect.

The majority of Muslims in Jordan are devout Muslims, and for them Islam is respecting others and living peacefully. For decades Muslim Jordanians have been studying abroad achieving high ranks and good friendship where ever they go.
It’s just the bad company and the shallowness of the person that would ruin everything.
The question is, if this Asha guy didn’t leave Jordan, would he ever get involved in such things? It’s a very tricky question.”

“Se ele está realmente envolvido, deve haver alguma explicação, e eu pessoalmente testemunhei isto:
O que acontece é que estudantes árabes vão estudar fora, em países onde há liberdade política e religiosa, países como: Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Austrália. Agora, esses estudantes conhecem outros estudantes muçulmanos, geralmente paquistaneses que têm alguns extremistas entre eles, e é aí que eles são doutrinados com toda essa porcaria. E isso é experiência própria (um amigo íntimo não fala mais com você porque você é cristão, o cara se transformou em 5 meses).Como no Paquistão, grupos e partidos extremistas estão profundamente enraizados naquele país, e para um estudante árabe que se encontra numa cultura estranha e recentemente numa cultura hostil em relação ao Islã (pense no pós 11 de setembro, nas caricaturas dinamarquesas, na fala do papa, etc) esses caras teriam alguma influência.

A maioria dos muçulmanos da Jordânia é de muçulmanos devotos e para eles o Islã significa respeitar o próximo e viver pacificamente. Por décadas muçulmanos jordanianos têm estudado no exterior obtendo boas notas e fazendo boas amizades independentemente de onde estejam.
São as más companhias e a fraqueza de caráter que podem por tudo a perder.
A pergunta é, se esse Asha não tivesse saído da Jordânia, será que ele alguma vez se envolveria nessas coisas? É uma pergunta muito difícil.”

Na mesma seqüência, Khalaf nota [7] [EN] que o Reino Unido é um terreno fértil para fanáticos islâmicos.

“London continues to be the home for the most extreme religious fanatics, operating in total freedom.

So, when a brilliant young doctor and his wife left Jordan two years ago, it might not have been too far fetched that he may become a target for the preachers of hate and violence who call London home (as suggested by Firas). The man and wife had clean security records, and were focused on academic and professional achievement rather than mischief.It has not been established yet in court whether they were really involved in the terror plots or to what extent. However, they do seem to have been mixing with a bad crowd.

Personally, I take little stock in the propaganda that tries to blame such conversions to fanaticism on the freedom which is enjoyed in the west. The descendants of the British Empire on which the sun never set can not be so impotent when dealing with a few loud mouthed welfare abusing fanatics. The country that did not hesitate to destroy Iraq and throw it’s population into massive turmoil in which hundreds of thousands have been killed and millions have been displaced can not be so sensitive to the supposed civil rights of a few trouble makers who can be dealt with in a legal and civilized manner….

It is not difficult to conclude that British authorities harbor and tolerate these people because they serve a purpose. I might add that this purpose is not benign. The end result is that terror emanating from the preachers of hate serves to marginalize the Muslim community in Britain, and fosters xenophobia with the British public. Abroad, this tolerance legitimizes extremism, and is a source of pressure on Arab and Muslim countries to act in a similar way with their own extremists. Only a lunatic or a traitor would try to emulate this behavior.

So, while we are worried about fanatics returning from Iraq, Pakistan or Afghanistan, it might be worth while to remember that Britain is the only country that offers preachers of death residency, welfare and legal protection.”

“Londres continua abrigando os fanáticos religiosos mais extremistas, que atuam em completa liberdade.

Portanto, não é tão improvável que um jovem médico brilhante, ao sair da Jordânia há dois anos acompanhado de sua mulher, tenha se tornado alvo dos pregadores do ódio e da violência que chamam Londres de seu lar (como Firas sugeriu). O homem e sua mulher não tinham ficha criminal e sua atenção estava voltada para a realização acadêmica e profissional e não para o mal. A justiça ainda não determinou se eles estavam realmente envolvidos nos planos terroristas, ou até que ponto. Entretanto, parece sim, que eles andaram se envolvendo com más companhias.

Eu particularmente dou pouco crédito à propaganda que tenta atribuir à liberdade desfrutada no ocidente essas conversões ao fanatismo. Os descendentes do império britânico onde o sol nunca se punha, não podem ser tão impotentes ao lidar com uns poucos fanáticos vociferantes e abusadores da assistência social. O país que não hesitou em destruir o Iraque e jogar sua população numa imensa baderna em que centenas de milhares de pessoas foram mortas e milhões foram desalojadas, não pode ser tão sensível aos supostos direitos civis de uns poucos agitadores que podem ser tratados de uma maneira legal e civilizada….

Não é difícil concluir que as autoridades britânicas abrigam e toleram essas pessoas porque elas servem a um propósito. Devo acrescentar que esse propósito não é benigno. O resultado final é que o terror emanado dos pregadores do ódio serve para marginalizar a comunidade muçulmana na Grã-Bretanha e fomentar a xenofobia entre os britânicos. No exterior, essa tolerância legitima o extremismo, e é uma fonte de pressão sobre os países árabes e muçulmanos para agir de maneira semelhante em relação aos seus próprios extremistas. Só um louco ou traidor tentaria emular esse comportamento.

Portanto, enquanto nos preocupamos com fanáticos retornando do Iraque, Paquistão ou Afeganistão, vale a pena lembrar que a Grã-Bretanha é o único país que oferece aos pregadores da morte visto de residência, assistência social e proteção legal.”

Enquanto isso, Salam Adil, do Iraque, mostra a reação de blogueiros iraquianos aqui [8] [EN]

(texto original de Amira Al Hussain [9])



O artigo acima é uma tradução de um artigo original publicado no Global Voices Online [10]. Esta tradução foi feita por um dos voluntários da equipe de tradução do Global Voices em Português [11], com o objetivo de divulgar diferentes vozes, diferentes pontos de vista [12]. Se você quiser ser um voluntário traduzindo textos para o GV em Português, clique aqui [11]. Se quiser participar traduzindo textos para outras línguas, clique aqui [13].