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Croácia: A “Feral Tribune” fecha as portas

Na semana passada, o Ministério das Finanças croata bloqueou as contas bancárias do semanário político “Feral Tribune” (Tribuna Feral), lendário na região, por conta de 68.000 Euros em dívidas de impostos, forçando a publicação a fechar.

Fundada em 1984, a revista em língua croata não chamava muita atenção antes da queda da Iugoslávia no início dos anos 90. Nos últimos 14 anos, contudo, a Feral Tribune vinha abordando assuntos que a maioria das outras publicações não ousava nem mencionar — e sobreviveu a uma grande quantidade de processos.

Aqui está como Ex-YU Press (Imprensa da Ex-Iugoslávia), um auto-proclamado “Informante ‘de dentro’ sobre os assuntos da antiga Iugoslávia,” caracterizou o Feral Tribune:

“[…] The magazine, to our knowledge, has no counterpart in the West. Its satire is too daring for mainstream advertisers, its reporting too uncompromising for mainstream politicians. Feral Tribune’s mission is not merely to report news and entertain, but also to help turn its readers into better human beings!

[…]

In 2004 Feral Tribune sells about 30,000 copies per issue and boasts with almost fanatical readership in Croatia, abroad and all parts of the former Yugoslavia, readership that was prepared to pay court imposed fines and thereby save its magazine. Its editorial policy remains unpalatable for mainstream advertisers, which resulted in the demise of an attempt to publish a luxury color edition of the magazine. […]”

“[…]A revista, até onde sabemos, não tem semelhantes no Oeste. Sua sátira é corajosa demais para os anunciantes tradicionais, sua linha de reportagem muito independente dos políticos tradicionais. A missão da Feral Tribune não é apenas reportar notícias e divertir, mas também ajudar seus leitores a se tornarem seres humanos melhores!

[…]

Em 2004 a Feral Tribune vende por volta de 30.000 cópias por edição e goza de um quase fanático círculo de leitores na Croácia, arredores e em todas as partes da antiga Iugoslávia; um círculo de leitores que está preparado para pagar as multas impostas pela justiça e salvar sua revista. Sua política editorial permanece indigesta para os anunciantes tradicionais, o que resulta no descarte de uma tentativa de publicar uma luxuosa edição em cores da revista. […]”

Como explicou um comentador no Bosnia Vault, os problemas atuais da revista tem a ver com o sistema tributário croata — a saber, a comparativamente gigantesca taxa de valor agregado (VAT) cobrada dos jornais:

“It seems that Feral Tribune has a massive outstanding VAT bill. I find it difficult to credit that Croatia imposes 22% VAT on newspapers. In the UK books and newspapers are zero-rated for VAT. During the first half of the 19th century Britain had a newspaper tax which was considered a “tax on knowledge”. It would be very difficult for any politician to try and bring in that sort of levy again. It obviously promotes domination of the media by commercially successful publications that are less likely to challenge the rich and powerful.”

“Ao que parece a Feral Tribune tem uma massiva conta de VAT (taxa de valor agregado). Eu acho difícil de acreditar que a Croácia impõe uma taxa de valor agregado de 22% sobre os jornais. No Reino Unido, livros e jornais tem taxa VAT zero. Durante a primeira metade do século dezenove o Reino Unido tinha uma taxa imposta aos jornais que era considerada uma “taxa sobre o conhecimento”. Seria muito difícil para qualquer político trazer de volta esta cobrança. Ela obviamente promove a dominação da mídia pelas publicações com grande sucesso comercial, que geralmente não tentam desafiar os ricos e poderosos.”

O Bosnia Vault também havia mencionado a Feral Tribune em uma de suas matérias passadas:

“Combining satirical and analytical journalism, the basic message it proclaimed was that not all Croats were the same, set out to kill Muslims and Serbs. And not all Serbs were the same, set out to kill Croats.

Written at times in a deeply ironic prose, Feral Tribune utilize wit and common sense to talk about the war in a way that very few papers were capable of doing.”

“Combinando jornalismo satírico e analítico, a mensagem básica proclamada é de que nem todos os croatas são iguais, inclinados a matar sérvios e muçulmanos. E nem todos os sérvios são iguais, inclinados a matar croatas.

Escrita por vezes com uma prosa profundamente irônica, a Feral Tribune utiliza sarcasmo e senso comum para falar sobre a guerra de um jeito que poucos jornais eram capazes de fazer.”

E aqui está uma conversa entre dois blogueiros sérvios, que aconteceu no B92 Blog[SRP] em 15 de junho de 2007:

Jelica Greganovic:

Return Feral to us! Return Roby K. to me!

No Feral! No Roby K.! It is not published, and it is unknown whether it will be again. What will I read now? The only independent journal on the Balkans has now been silenced.

The Croatian ministry of finance waited for Roby K. around the corner and fleeced him. But, since Roby’s pockets were empty, […] the ministry blocked his bank account.

[…]

RETURN Feral TO ME!

Return my Croatian (and wider than that) journal, the journal of Croatian anarchists, protesters and heretics who are dear to God, but aren’t hateful to the Devil, either.

P. S. The editor-in-chief of Feral Tribune – Roby K. ([Viktor Ivancic]) – received a Golden Pigeon Peace Prize (Colombe d’Oro per la Pace) in Rome last Wednesday. He said then: “… we who thought differently – there are no circumstances that can justify war crimes – were considered the nation’s traitors. Here’s how they treated us: police mistreatment, court persecutions, death threats, burnings of our newspaper. […] I want to say there are circumstances when national treason is not bad. Blind patriotism is never a good basis for making moralistic principles in a society. Just as the truth has no nationality, I think that honorable journalism has no nationality, either. […]”

Sentinel:

Feral Tribune did not die the death of fascism, but was killed by free market.” (Danko Plevnik, “Slobodna Dalmacija,” 15.06.2007.)

Jelica Greganovic:

If the market is free, why then did the state forgive a tax debt to the witty [”Slobodna Dalmacija”] and other government newspapers, such as [“Vjesnik”], “The Croatian Voice” and the HRT [state TV channel]? Or is there a criterium, according to which only the government newspapers don’t have to pay taxes – because they publish what the government likes?

Sentinel:

I really don’t know enough about the situation with their press. But I’ve read Danko’s column, and I’m shocked. Where is their solidarity? […]

Jelica Greganovic:

Feral is not a favorite of the state. For example, Croatian government wrote off a tax debt to “Slobodna Dalmacija” – 2,800,000 Euros. But it didn’t write off the 70,000 Euros that Feral owed and blocked its bank account and forcibly took the money from the sales of the magazine. Journalists have not been paid in two months. Writing off tax debts is only for the news outlets that are utterly in government property, as the HRT and “Vjesnik” are.

Jelica Greganovic:

Devolvam o Feral para nós! Devolvam Roby K. para mim!

Nada de Feral! Nada de Roby K.! Não está sendo publicado, e não sabemos se o será novamente. O que irei ler agora? O único jornal independente das Balcãs foi agora silenciado.

O ministério das finanças croata esperou Roby K. na esquina e o tosquiou. Mas, como os bolsos de Roby K. estavam vazios. […]o ministério bloqueou sua conta bancária.

[…]

DEVOLVAM a Feral PARA MIM!

Devolvam o meu jornal croata (e que é mais do que isso), o jornal dos anarquistas croatas, manifestantes e hereges que são queridos de Deus, mas que também não são odiosos para o Diabo.

P.S. O editor-chefe do Feral Tribune – Roby K. ([Viktor Ivancic]) – recebeu o prêmio Pombo de Ouro pela Paz (Colombe d'Oro per la Pace) em Roma na última quarta feira. Ele disse então: “…aquele que pensou diferente — que não há nenhuma circunstância em que se possa justificar crimes de guerra — foram considerados traidores da nação. Era assim que nos tratavam: maus tratos policiais, perseguições judiciais, ameaças de morte, incendiavam o nosso jornal. […] Eu quero dizer que há circustâncias em que a traição nacional não é má. O patriotismo cego nunca é uma boa base para se fazer princípios moralistas em uma sociedade. Assim como a verdade não tem nacionalidade, eu acho que o jornalismo honrado não tem nacionalidade, também. […]”

Sentinel:

“A Feral Tribune não morreu a morte do facismo, mas foi morto pelo mercado livre.” (Danko Plevnik, “Slobodna Dalmacija,” 15.06.2007.)

Jelica Greganovic:

Se o mercado é livre, por quê então o governo perdoou as dívidas tributárias para do espertinho [”Slobodna Dalmacija”] e de outros jornais governistas, como o [“Vjesnik”], “The Croatian Voice” e do HRT [canal de TV estatal]? Ou será que existe um critério, de acordo com o qual apenas os jornais governistas não precisam pagar impostos — já que publicam o que o governo gosta?

Sentinel:

Eu realmente não sei o suficiente sobre a situação com a imprensa deles. Mas eu lí a coluna de Danko, e eu estou chocado. Onde está a solidariedade deles? […]

Jelica Greganovic:

A Feral não é uma favorita do estado. Por exemplo, o governo croata cancelou uma divida tributária para o “Slobodna Dalmacija” – 2,800,000 Euros. Mas ele não perdoou os 70,000 Euros que a Feral devia e bloqueou sua conta bancária e tomou à força o dinheiro das vendas da revista. Os jornalistas não foram pagos nos últimos dois meses. O perdão das dívidas tributárias é apenas para os veículos noticiosos que são totalmente da propriedade do governo, como a HRT e o “Vjesnik” são.”

(Texto original em inglês por Sinisa Boljanovic

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